Brasileiros

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O coração da cidade pulsa, ditando a agitação das ruas, o movimento das pessoas pelas calçadas, o diz-que-diz à porta do Café Globo. De vez em quando, o vozerio é apagado por um minuto ou dois: a voz de um alto-falante fixado ao teto de um veículo promete sonhos e felicidade aos consumidores.


Enquanto tudo é movimento e barulho ao redor, a vida parece devagar num dos bancos da Praça Barão. Sentado quase numa extremidade, um velho de chapéu, de terno branco, de gravata escura parece dormitar, agasalhado pelo sol brando do inverno.


O sossego desaparece, porém, daquela ilhota, quando um corpanzil aporta no meio do banco de cimento e uma voz possante detona o silêncio por onde vaga o espírito do velho.


- Bom-dia, Sô Chico.


Sobressaltado, o velho fica em pé, seu corpo oscila, por um momento parece que a bengala não evitará queda.
- Hein? O quê?
 

-Calma, Sô Chico. Senta aí, eu não queria assustar o senhor.
 

- Ah, sim... Com licença.
 

- Então, como o senhor vai indo, Sô Chico?
 

- O jovem me conhece?
 

- Ora, Sô Chico, sou o Edu, o corretor. O senhor cansou de me fazer favor lá na Prefeitura.
 

- Ah, Chico Franco, seu criado.
 

- Então, Sô Chico, viu o jogo do Brasil?
 

- Vi, meu jovem. Vi, sim. Mas não gostei.
 

- É, não foi lá essas coisas, mas valeu. O que importa é que nós ganhamos. O que vale são os três pontos.
 

- As pessoas pensam assim... Eu gosto é de um bom jogo. Uma vez eu entrei num lotação, fomos a São Paulo ver o jogo do Santos e do Cruzeiro. A gente queria ver o Pelé.
 

- Então o senhor viu o Pelé jogando?
 

- A gente viu o Péle, viu o Dirceu Lopes, viu o Tostão... A gente viu jogo de verdade.
 

- Ah, Sô Chico, que pena que esse tempo já acabou.
 

- Aqui em Franca parece que acabou. Você sabe que uma vez fizeram uma disputa entre a Francana e o Internacional ?
 

- Uma disputa?
 

- Foi uma melhor de três. A Francana contratou até um centro-avante famoso, o Ponce de Leon. O primeiro jogo foi lá no Estádio Coronel Nhô Chico, e a Francana venceu por dois a um. No outro domingo, o jogo foi lá na Estação e nós ganhamos de um a zero. Quem marcou o gol foi o Laércio Maritan. A última partida foi lá no campo do Palmeirinhas e nós perdemos por dois a zero. A equipe do Internacional naquela disputa foi assim: Milton Raimundini, Arturzinho e Luizinho; Japão, Alemão e Tim; Canuto,Alvim,Rubens, Laércio e Chico Leite. Será que o ponta-direita foi o Canuto ? Estou na dúvida... Lembro bem é que o Milton Raimundini falhou nos dois gols da Francana e então ele ficou com raiva, largou de jogar no gol. Aí ele virou centro-avante e ainda foi campeão mais três vezes com o Internacional.Aquilo era time de verdade... Ah, no último jogo, o Laércio estava machucado e o Mitre jogou no lugar dele.
 

- Esses caras eram profissionais?
 

- Eram, eram. Cada um tinha sua profissão. O Japão era sapateiro, o Laércio era pedreiro, o Luizinho pintava casa.... Todo mundo trabalhava. Parece que o Alvinho morreu de desastre de caminhão. Ele era motorista.
 

- Então eram amadores?
 

- Naquela época falavam que uns eram amadores e os outros eram varzeanos, mas era quase tudo a mesma coisa. Cansei de ver craques disputando o campeonato varzeano. Eu vi o Tiplum, o Pelezinho, o Vedevé, o Zezão.. isso só pra falar dos jogadores lá da Estação.
 

- Mas, Sô Chico, o senhor concorda que a seleção brasileira ainda é a melhor do mundo, não concorda?
 

- A seleção brasileira... Ainda ontem eu estava conversando com o Arlindo Barbeiro e eu falei pra ele que os jogadores da seleção nasceram aqui no Brasil, mas não são brasileiros mais não.
 

- Hoje em dia é assim mesmo, Sô Chico... em todo lugar. É coisa da globalização.
 

Alguma coisa parece despertar a curiosidade do velho. Ele olha para os lados, olha para o alto, volta-se para o companheiro de banco.
 

 Se mal lhe pergunto, qual é a sua graça?
 

- Meu nome é Carlos Eduardo Gouveia Figueiredo, mas todo mundo me chama de Edu.
 

- Muito prazer. Chico Franco, seu criado.
 

Agora é a cara de Edu que revela ligeiro espanto, enquanto o velho se levanta, leva a mão à aba do chapéu e continua:
 

- Eu peço licença ao jovem pra me retirar. Estou indo lá pra Estação da Mogiana, eu moro atrás da linha do trem. Até mais ver, jovem.


E o velho começa a caminhar em direção à Rua General Teles. Sua bengala faz barulho cadenciado nas pedras do calçamento, mas isso dura apenas um momento. Logo o toc-toc se mistura ao som comum da praça, à música comum de nossa vida globalizada.

 

Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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