Sonhar

Por:

“Ontem eu sonhei que via Deus
e que a Deus falava;
e sonhei que Deus me ouvia...
Depois sonhei que sonhava.
À noite sonhei que ouvia a Deus,
 gritando-me: Alerta!
Logo era Deus que dormia
e eu gritava: Desperta!”

Antonio Machado, citado no Livro dos Sonhos, de Jorge Luis Borges.
 
 
‘Sonho’ tem vários significados; interessam-nos dois, retirados do dicionário Aurélio: ‘a seqüência de fenômenos psíquicos (imagens, atos, idéias, etc.), que involuntariamente ocorrem durante o sono’, e ‘desejo, aspiração’. Pode-se dizer que a primeira é a definição do sonhar dormindo; a segunda, do sonhar acordado.

Nesta vida de mistérios, o sonho como fenômeno psíquico é um enigma que me fascina. Em criança, desejava ardentemente ganhar uma bicicleta; via colegas ganhar no Natal e gostaria também de ter uma, mas nunca revelei porque sabia que meu pai não tinha dinheiro para isso. Então ocorria uma coisa curiosa: pensando na bicicleta e sabendo que não teria uma, eu dormindo sonhava que havia ganhado, mas no próprio sonho já sabia que não era real, que ia acordar e não encontrá-la.

Sempre fui de lembrar bem de tudo que sonhava durante o sono. Sonhava muito com meus pais, falecidos em 1999 e 2000. Sonhos tão claros que nem pareciam sonhos. No fim de 2002 passei a fazer um tratamento contra insônia e desde então durmo melhor; só que não me lembro mais dos sonhos; quando muito tenho uma lembrança vaga. Diz o médico que é porque agora eu acordo menos durante a noite.

Eu costumava ter pesadelos e acordar dando gritos pavorosos. Há alguns anos descobri a causa. Quando me deitava, ficava de barriga para cima, com as mãos entrelaçadas sobre o abdômen, aguardando o adormecer. O que me fazia ter os pesadelos era a pressão que fazia com as mãos no abdômen.

Mais jovem, sonhava muito que voava; nunca soube o que isso pode significar. Às vezes tinha sonhos ruins, e queria acordar, mas não conseguia; outras, acordava frustrado porque estava num sonho interessante e queria saber o que ia acontecer. Um amigo, apaixonado por uma loira que nem sabia que ele existia, contou-me que de repente estava com ela a declarar que o amava; antes de beijá-la, ele pedia a ela que o beliscasse para ter certeza de que não estava sonhando. Ela o beliscava e... ele acordava.

Eu jogava futebol e, depois de perder os meniscos em seguidas contusões, contraí uma artrose acentuada no joelho direito, o que me obrigou a parar. Foi necessária uma cirurgia para limpar o joelho e conter o processo de desgastes dos ossos. Depois de tirar o gesso, levei meses para conseguir flexionar a perna, mesmo assim não totalmente. Fiquei tão triste por não poder mais jogar que às vezes sonhava que estava numa partida e corria leve como o Ademir da Guia.

No plano real, vejo sonhos como objetivos a atingir, projetos a realizar. Aprecio musica e quando jovem tinha o desejo (irrealizável, posso dizer) de cantar e tocar guitarra. Ouvindo rock com o fone de ouvido, imaginava-me o vocalista, o guitarrista. Robert Plant em “Since i’ve been loving you”, David Coverdale em “Mistreaded”; eram meus os solos de guitarra em Hotel Califórnia, Higway Star, Burn, Ovelha Negra. Sonhava acordado. Pensei que estava sonhando no ataque terrorista às torres gêmeas do WTC, em 2001, que vi ao vivo pela TV, e na Copa de 2002, naquele jogo contra a Inglaterra, quando fiquei acordado a noite inteira.

Acho necessário ter sempre um objetivo, um projeto, um sonho. O sonho é o motor que impulsiona a vida. Concretizá-lo, porém, exige sacrifício, disciplina, trabalho, dedicação. Nada cai do céu. O que vale mesmo não é a realização do sonho, mas o que se faz para chegar lá e, sobretudo, o que se faz quando se pensa ter chegado lá. É que nunca há um ponto final. Cada etapa vencida é um porto, mas não de chegada: de partida. Disse Ghandi, ‘não existe caminho para a felicidade; a felicidade é o caminho’.

O índice altíssimo de reprovação nos exames da OAB revela que milhares de bacharéis em Direito sonham ser advogados, mas não alimentam devidamente o sonho; não estudam sério, não se dedicam o suficiente, não se preparam adequadamente. E passar no exame de seleção é só mais uma etapa. Depois vem o esforço para exercer a profissão dignamente, desempenhar corretamente a função, o que exige mais estudos, amadurecimento, atualização freqüente.

Cedo eu aprendi que é preciso sonhar, não perder a esperança. Mas há tempo de sonhar e tempo de acordar. É necessário lutar, entrar na dança, ter persistência. A batalha não tem fim, pois, tão certo como um e um são dois, pode esperar, algo sempre vem depois, em seqüência, tentando fechar a passagem, a nos desafiar. É assim. Com 50 anos de existência, razoável experiência, eu falo por mim.
 
 
Paulo Pereira da Costa
é promotor de Justiça e escritor

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