Luiz Cruz, poeta

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Já escrevi sobre Luiz Cruz. Foi por ocasião de sua aposentadoria como funcionário do Banco do Brasil. No final do expediente do seu último dia de trabalho, ele saiu do Banco e, na calçada, despiu-se do paletó, da gravata, da camisa branca, dos sapatos sociais e ateou fogo em tudo. Não ficou nu, pois vestia por baixo do uniforme de bancário uma camiseta e bermuda. Nas mãos, trazia embrulhado um par de tênis. Calçou-os e foi para casa.


 Entendi bem a atitude de Luiz Cruz. Mais do que um protesto, foi uma celebração. Celebrava a sua liberdade. A partir daquele instante, ele retomava a posse de sua vida e passaria a decidir sobre os seus horários, as suas vestimentas, o seu comportamento, o momento para a manifestação de suas idéias.


 Nem todos entenderam o sim-bolismo do ato de Luis Cruz. Certa feita, perguntando a um eleitor se votaria em Luiz Cruz para prefeito, ele me respondeu:


 - Cruz credo! Eu não voto nesse homem não. Ele é doido. Ficou pelado em frente do Banco do Brasil.


 Doido!? Não, Luiz Cruz não é doido. É um poeta, vive com as angústias, as alucinações e os encantamentos de um poeta. É um poeta que se comunica em prosa.


 Tão importante quanto a sua obra literária é o incentivo que ele dá aos novos escritores. Cruz estimula-os, provoca-os e cria condições para que suas obras sejam editadas. Cruz não é simplesmente um escritor solitário. É, antes de tudo, um homem solidário. Ele quer companhia, ele precisa de companhia, ele trabalha no sentido de que as pessoas libertem do seu interior a arte contida e a transformem em literatura


 Presto aqui a minha homena-gem ao menino pobre da Estação que para estudar precisou do apoio da Lasep, ao funcionário exemplar do Banco do Brasil, ao professor de Português que, na prática, facilitou o ensino da gramática, ao amigo que me ajudou a lançar o meu primeiro livro sobre a História da Franca, ao literato fecundo, verdadeiro, inspirado na vida e na luta dos sapateiros de Franca.

 

Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

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