Seu Eurico

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Terminal urbano repleto de gente. Calor das onze, ônibus que chega, ônibus que sai. É quarta-feira. Sentei-me em um banco e ensaiei dar início à leitura de uma revista, uma matéria sobre Andy Warhol e a cultura pop do século 20. Do meu lado, como quem queria puxar papo, um senhor chegou fazendo um comentário quase inaudível, ao receber um panfleto do serviço militar. Interrompeu-me sutilmente o interesse pelo que ia ler, já que ali logo vislumbrei uma possibilidade de aprendizado daqueles que não se têm todo santo dia. A história oral de seu Eurico Rosa, à guisa das que Joe Gold teria escrito em Nova York dos anos 1940 (bem contou Joseph Mitchell), não está em livro e provavelmente não estará. É raridade a ser colhida; o fiz, ainda que por migalhas.


Seu Eurico Rosa, o proseador mineiro, diz ter 101 anos. E duvidei até quando pude. “Não é possível seu Eurico”. Mas ele insistiu, mesmo parecendo ter menos de 80. Na sua tranqüilidade, uma vontade evidente de ficar ali para relatar o que viveu, o banco do terminal é seu palco particular, de um monólogo que ele pratica quase todos os dias, um monólogo que se repete ali ou em qualquer outra praça onde ele pare para conversar.


Seu Eurico não parece estar com pressa, talvez tenha ido tão longe por esse fato. Onde nasceu? “Três Corações. Mas já fui caminhoneiro em Itaú de Minas”, conta. Nessa época, lembra de quando não conseguiu passar por uma ponte estreita, episódio, que, se me lembro bem, fez com que ele deixasse o serviço, apenas um de uma grande lista. Seu Eurico já foi também criador de gado em Barretos e prestou serviço militar no Mato Grosso. “O regimento é melhor”. Desse tempo, lembra-se que seu sargento tinha uma fazenda de 1,6 mil hectares. “É bem chão”. Também se recorda das viagens ao Paraguai. “Roubo e carregamentos eram demais. Lá a coisa é feia”, fala, olhando distante, enquanto se esquece do cigarro não aceso entre os dedos só pra estender o papo.


Já passou uma temporada em Ribeirão Preto seu Eurico, onde diz ter jogado nas divisões de base do Botafogo. Hoje, o homem trajado com calça brim desbotada, uma camisa gola polo preta seu acessório mais novo -, um cansado chapéu inseparável da cabeça e uma algibeira na cintura portando um canivete, vai sem destino. Sua pele negra e queimada é um emaranhado de traçados, numerosos como os anos vividos, como os causos a dividir. O ônibus chegou. Eu subi, o ônibus partiu, seu Eurico também.

 

Rodolfo Tiengo
Jornalista

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