Gincanas e urubus

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Corria o ano de 1966. Os irmãos Silva, tradicionais comerciantes da cidade, inauguravam o Jóia Magazine, na rua Voluntários da Franca, uma grande loja de roupas. Meu pai tinha caderneta lá e minha mãe sempre nos levava para comprar vestimentas e outras coisas que nem lembro mais.


O fato é que, para comemorar a abertura da nova loja, eles promoveram uma grande gincana que, naquele tempo, numa cidade que tinha pouco mais de 70 mil habitantes, ainda era pequena o suficiente para uma atividade que envolvesse a cidade toda. Geralmente, era a Rádio Difusora que divulgava as gincanas, como foi daquela vez. As equipes eram montadas por jovens de classe média, que tinham carro e a emissora ia anunciando, ao longo do dia, as provas, cada vez mais complicadas e difíceis de atender. Havia um furor competitivo das equipes em busca da vitória.


O fato é que, neste dia, uma das tarefas era capturar um urubu vivo e levar para a coordenação da gincana. Meu pai tinha um curtume na esquina das avenidas Champagnat com Ismael Alonso, no meio de uma verdadeira chácara. Ainda não havia Cetesb para fiscalizar e a salgadeira, aberta dos lados, ficava cheia de couros, por onde os urubus aproveitavam para tirar uma casquinha. De repente, apareceram o Roberto Vilela e o Miguel Heitor Bettarello com uma espingarda de chumbinho atirando nos urubus, meu irmão tinha levado os dois para lá na esperança de vencer a prova.


Minha mãe e minha avó (que morava numa casa ao lado) apareceram desesperadas e bravas para dar a maior bronca nos atiradores, que era perigoso dar tiros no lugar e acertar as crianças que brincavam no quintal da chácara. Resultado: ficaram sem o urubu. Acho que acabaram perdendo a gincana por conta disso.


Mais recentemente, fui surpreendido em casa num sábado à tarde por estudantes secundários que participavam de uma gincana de uma escola privada local. Fui praticamente seqüestrado de calção, chinelas Rider e camiseta velha e amarrotada de campanhas passadas do PT e levado para o júri da gincana como um autêntico escritor francano. A sensação deve ter sido parecida com a que sentem os macacos e os leões nas jaulas, fui exibido como uma espécie de atração circense. Para manter a sina zoológica, prometi nunca mais pagar tal mico.


As gincanas praticamente acabaram, ao menos na sua enorme dimensão e envolvimento daqueles tempos, mas restou-me uma dúvida. Houve uma, também nos anos 60, que a prova mais difícil era entregar um pedaço do manche de um teco-teco que tinha caído sobre a área do antigo mercado, onde hoje está o terminal de ônibus. Será que alguém achou o manche do tal avião?

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor

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