A difícil arte de pôr um jornal em circulação

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Além de algumas lides acadêmicas que me restaram ao longo de décadas de docência e pró-reitoria de ensino, vejo-me ainda com algumas tarefas ligadas à educação. O resto do tempo útil de um dia eis-me como editor-chefe de uma editora universitária. Esta experiência foi muito interessante e enriquecedora, notadamente quando se levam em conta as mudanças radicais que ocorreram no campo editorial. A ponto de alguns autores solicitarem apenas o serviço da edição do livro (revisão do texto, projeto gráfico, diagramação), mas evitarem a impressão. Preferem o seu livro levado ao público online, pela internet. E essa exigência vem crescendo mais do que havíamos projetado. Nem mais me espantei quando tomei conhecimento de que o Jornal do Brasil do Rio vem mandando suas notícias via online, quase num processo de substituição total da antiga forma impressa.


O Comércio da Franca tem leitores no mundo todo, graças à internet, mas não de seu conteúdo integral. Entretanto já é sintomático. Um outro detalhe: este nosso jornal busca a diversidade de assuntos que passam pelo crivo de uma equipe editorial com os olhos postos no perfil social, cultural e econômico de seus leitores e, a partir daí, a escolha da foto, da legenda, do texto, do título, do “enxugamento” de uma página, mas principalmente abrindo ao seu consumidor específico um leque de variedades, interativas ou não, que possam posicionar este leitor num patamar de satisfação capaz o suficiente de conferir ao nosso matutino certo nível de sustentabilidade. Manter o difícil continuum desejável por todos.


Não deve ser fácil, imagino, a reunião de pauta, o projeto da capa, a condensação de assuntos que mereçam detalhamentos, o alargamento do texto por si só breve e inciso, não mais numa caixa de madeira com linotipos de chumbo, mas na tela de um computador com as marcas de referência suporte.


O redator moderno há de trazer consigo qualidades inerentes à sua função: redigir o essencial num texto assertivo, numa linguagem escorreita e que se encaixe nos limites impostos pelo editor na tela de seu computador. Brevidade, concisão, assertividade e compromisso com a realidade.


Há algum tempo, os editores do jornal Courier, de Campbell, Canadá, escreveram: “Pôr este jornal em circulação não é brincadeira: se publicamos piadas, dizem que somos palhaços; se não as publicamos, dizem que somos sérios demais e precisamos de um pouco de humor. Se nos apegamos muito ao trabalho, o patrão diz que deveríamos andar lá fora, procurando notícias; se demoramos muito na rua, ele fica se perguntando onde andávamos, em vez de estarmos aqui para atender aos telefonemas e às visitas de surpresa. Se não publicamos contribuições dos leitores, é porque não apreciamos o gênio; se o fazemos, o jornal fica cheio desse bagulho. Se introduzimos alguma alteração no que outro escreveu, somos excessivamente críticos; se não o fazemos, somos desleixados ou pouco atenciosos. Se transcrevemos coisas de outros jornais, somos demasiado preguiçosos, por não escrevê-las nós mesmos; se não as transcrevemos, é porque estamos dando exagerado valor ao que escrevemos. Vai ver que alguém é capaz de dizer que a gente surrupiou este texto de algum jornal... E é verdade!”


Difícil, não é mesmo? E saiba o leitor que o texto é de 1977!


Talvez seja por essa razão que, acertada e democraticamente, o Júnior tenha optado por um Conselho de Leitores em lugar de um ombudsman. Opiniões variadas, ricas e jovens podem render mais que a crítica mordaz de um só provável carrancudo.


O Comércio da Franca, à frente dessa tarefa hercúlea, sugere acertos em suas escolhas, haja vista a preferência incontestável do leitor e o rico e variado material informativo que penetra diariamente em grande parte dos lares francanos.


Resta a parte comercial do negócio, o tal do preço por milimetragem de página ou quaisquer outras alternativas que venham ao encontro da expectativa do patrocinador. Porque, convenhamos, sem ele não subsiste nem jornal, nem jornalista, nem ninguém!

 

Everton de Paula
Acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 42 anos

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