Urubus, terreiros e labirintos

Por: Sônia Machiavelli

108208

Depois da melancólica Bienal 2008, marcada por decisão polêmica do curador Manoel Pires da Rocha, deixando vazio todo um andar do prédio do Ibirapuera sob pretexto de propiciar espaço para a respiração num mundo saturado de imagens, a atual edição parece ter recuperado o ânimo. Confira-se crédito a Heitor Martins, que na curadoria da instituição conseguiu zerar a dívida de 5 milhões deixada por Rocha e arrecadar outros 30 para que Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, os novos curadores, estruturassem a exposição inaugurada no sábado, 25.

Estive lá no domingo, com minha neta Júlia e a amiga Lívia, percorrendo em quatro horas os 30 mil m² do pavilhão projetado por Oscar Niemeyer nos anos 50. Neste mega-espaço Marta Bogéa criou ruas, vielas, becos, praças e algumas áreas de escape para os corredores laterais, que respondem à natural demanda por luz depois de trechos labirínticos. Esta sensação de não-linearidade nos permeou o tempo todo. Ao erguer salas de diferentes tamanhos entre os corredores, a arquiteta motivou a percepção de escolhas, fez com que os visitantes se perdessem e, a partir daí, buscassem caminhos de reencontro com a arte dentro das salas e nos seus entornos. São 850 obras de 159 artistas de diferentes nacionalidades. Nem tudo do mesmo nível.

Gostar é verbo especialmente questionável em se tratando de avaliar obras de arte pós-modernas. Talvez um tanto delicado e subjetivo. Certamente melhor empregável na sua regência intransitiva. A idéia-chave está ali, logo na entrada, inscrita na parede, preto no branco: “ Há sempre um copo de mar para o homem navegar”, verso do modernista alagoano Jorge de Lima, parte do poema Invenção de Orfeu. Depois, reaparece contextualizada nas considerações dos atuais curadores: “ Toda arte que nos faz repensar as convenções e os consensos é política”. Então, sob este fio condutor que politizou a seleção das obras mas não determinou a sua leitura, digo que Júlia elegeu o lúdico em Educação para Adultos, de Jonathas de Andrade; Lívia, o onírico, na série de fotografias Las aventuras de Guille y Belinda y el enigmático significado de sus sueños, de Alejandra Sanguinetti; eu gostei do gigantismo de Circle of Animals, esculturas assinadas pelo combativo Ai Wei Wei. Jonathas usou fichas para alfabetização de adultos empregadas por educadores adeptos do método Paulo Freire; Sanguinetti justapôs fotos em duas paredes opostas, para produzir um relato fantástico mas plausível, onde as imagens incomodam muito, apesar da delicadeza. Wei esculpiu enormes cabeças de animais que fazem parte do zodíaco chinês e as colocou em círculo, suspensas por suportes.

Mas impacto, pra valer, nos causou a instalação mais comentada desta Bienal, Bandeira Branca, do paulistano Nuno Ramos. São três esculturas enormes, em areia-preta, lembrando chaminés de fábrica, com caixas de vidro sonoras no topo, de onde saem os sons de Carcará, Boi da cara preta e Bandeira branca, que dá título à obra, em contraste e antítese ao negrume de tudo, aí incluídos os três urubus que voam de uma torre a outra, com breves aterrissagens, contidos por tela também negra. Uns a consideraram sinistra, outros acataram o negro como manifestação de luto, coincidindo com a explicação do artista. Alguns, como os próprios curadores, perceberam nela a leitura irônica da onda ufanista que varre o país, ocultando graves problemas nas áreas da saúde, educação e segurança. Há os que louvam e os que debocham. Mas ninguém passa ileso por ali, o que já é um ganho desta Bienal, pois a pior das respostas é a indiferença.

Cumpre falar agora dos seis terreiros, espaços para qualquer visitante se manifestar, interagir, pontuar. De todos, o mais expressivo talvez seja Longe daqui, aqui mesmo, de Marilat Dardot e Fábio Morais, que construiram uma casa de tijolos à vista coberta por capas, páginas, poemas, textos das literaturas de todo o mundo, numa sinalização para o fato de que a leitura pode representar acolhimento para nossas perplexidades diárias. Nada mais original e oportuno, numa Bienal que escolheu o signo linguístico como uma das vertentes pela qual estimula atitude ativa das pessoas. É um reforço à sugestão das encruzilhadas e das imagens impactantes. Diante de palavras, surpresas e labirintos, perder-se pode ser encontrar-se.


OS CURADORES

Moacir dos Anjos

Moacir dos Anjos é pernambucano do Recife e tem 47 anos. Sua formação em economia o levou ao cargo de pesquisador da fundação Joaquim Nabuco. A forte ligação com as artes fez dele um nome reconhecido no Brasil e no Exterior. Foi curador do Museu de Arte Moderna Aluizio Magalhães, no Recife; da coletiva Panorama da Arte Brasileira, no Museu da Arte Moderna de São Paulo; da Bienal do Mercosul, em 2007. É autor de Local/Global, arte em trânsito (Editora Jorge Zahar).

Agnaldo Farias

Agnaldo Farias é mineiro de Itajubá e tem 55 anos. Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, tem vários projetos concluídos e outros em andamento para o Instituto Tomie Ohtake. Foi curador da 23ª Bienal de São Paulo, em 1996, e do MAM ( Museu de Arte Moderna) do Rio de Janeiro. No Exterior responsabilizou-se pela Bienal de Joanesburgo, em 1995. Pela Editora Publifolha publicou Arte Brasileira Hoje e pela Aeroplano o título Luiz Zerbini.
Coube a Anjos e Farias eleger o tema desta Bienal a partir de um verso de Jorge de Lima (“Há sempre um copo de mar para o homem navegar”) e, entre muitos, o trabalho Bandeira Branca, do paulistano Nuno Ramos, para ocupar o espaço mais nobre do pavilhão.


Serviço
Título: Bienal 2010
Quando: de 25/09 até 12/12
Onde: parque Ibirapuera, portão 3
Quanto: grátis
Horário: seg a quarta, das 9 às 19hora; quinta e sexta, das 9 às 22 horas; sáb e dom, das 9hoo às 19 horas.
Mais informações: http:/www.29bienal.org.br; telefone; 0(xx) 11 5576-7600

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras