O paraíso do futuro

Por: José Borges da Silva

Não há dúvidas de que a parafernália tecnológica posta à disposição hoje assusta a muitos de nós da geração da máquina de escrever. Não se discutem os benefícios da tecnologia, a não ser por saudosismo, obviamente. E é aí que me vejo obrigado a confessar que ainda resisto a muitas coisas novas, especialmente as que facilitam a vida demais. Por exemplo: o câmbio automático: a não ser por necessidade, tira todo o charme de dirigir automóvel. E esse negócio de o sujeito entrar no carro sem chave - o veículo reconhece o dono pelas digitais, pela íris, cheiro... E aperta um botão ou fala aonde quer ir e o piloto automático aciona o motor, o GPS e pronto: o sujeito pode dormir! Não é mais chato do que andar de ônibus lotado? Alguém poderia observar que dirigir na cidade ficou sem graça, que o tempo pode ser aproveitado pra outras coisas. Que outras coisas? Com um carro desses o cara teria robôs para fazer outras coisas. E daqueles que se reproduzem sozinhos!

Sou da geração que aprendeu a ler nas HQs as velhas histórias em quadrinhos. Eu gostava dentre outros dos gibis do Fantasma, da saga dos Fantasmas, homens de fibra e bem treinados para defender as tribos da floresta negra. Moravam na Caverna da Caveira e ocupavam o posto do herói mascarado por sucessão hereditária, fazendo parecer aos nativos que se tratava sempre da mesma pessoa. Por isso o Fantasma era considerado imortal pelos nativos: o Espírito-que-anda.

Mas, confesso que não gostava muito das histórias do Fantasma que iam dar na Ilha de Éden, um lugar em que reinava paz absoluta, em que leões conviviam com veados, com zebras... Para mim havia paz em excesso... Eu gostava muito mais das aventuras na selva, da luta dos nativos contra invasores, sempre auxiliados pelo Fantasma. Paraísos tinham para mim, desde aquela época, um sabor de coisa pronta, de lugar insosso, parado demais. Acho que essa ideia de paraíso me veio da formação religiosa, mas que não me agradava inteiramente.

Olhando para o que ainda resta da vida natural, não tenho dúvidas de que o paraíso bíblico existiu mesmo. Mas não era aquele paraíso enfadonho que algumas religiões insistem em descrever. Falo de um paraíso capaz de se reinventar, de se renovar, de criar e recriar a vida sem a intervenção humana. Se atentarmos para o que a natureza nos oferece para ser consumido sem industrialização (frutos, sementes, caules, folhas, etc, que alimenta grande parte dos animais, que por seu turno são usados para espalhar sementes) não daria pra reconhecer nesse sistema um paraíso? Claro que há os predadores, que não conseguimos justificar nesse meio. Mas, com a intervenção humana, as coisas tomaram outro rumo. O homo sapiens tomou gosto por inventar paraísos. E, infelizmente, passou a menosprezar o paraíso natural que havia... As reportagens que passaram na televisão nas ultimas semanas, mostrando um Brasil em chamas, indicam que a coisa desandou pra valer. Parece que o equilíbrio natural que propicia a sobrevivência de milhares de espécies e que faz com que a vida ressurja das formas mais inusitadas e extraordinárias irá mesmo desaparecer nas próximas décadas. Tudo porque “a questão ambiental atrapalha o crescimento” ou porque “objetiva atender interesses de ONGs internacionais que querem desestabilizar o Brasil”... É uma pena.

De qualquer modo, parece que as gerações de aqui a algumas décadas terão de sobreviver da tecnologia. Certamente o conceito de paraíso será reinventado para incluir a tecnologia. Tomara que o novo paraíso tenha algum charme!

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