Nos tempos do estilingue

Por: Chiachiri Filho

No meu tempo, não havia dia ou semana da criança. Brinquedos, só por ocasião do Natal ou na data do aniversário.

Tive uma charretinha de paralamas niquelados, rodas de borracha e cavalinhos de pau que se movimentavam ao toque dos pedais. Porém, a calçada de casa era de terra, a rua também e a charretinha não andava: atolava no barro ou na poeira.

Tive outros brinquedos comprados na Casa Bettarello que, no entanto, não funcionavam tão bem diante das condições do terreno que servia de palco para as nossas brincadeiras.

Bom mesmo foi um estilingue que eu mesmo fiz com forquilha de jabuticabeira e elástico de pneu de bicicleta. Com ele participei de muitas “guerras”em que as balas eram as mamonas que deixavam vergões em nossas cabeças com cabelos cortados à escovinha.

Fabricávamos também lanças, arcos e flechas. As lanças, muito perigosas, eram feitas de ferro pontiagudo surrupiado de alguma casa em construção. Os arcos, de pau flexível cortados nas matas do Vale dos Bagres, serviam para lançar afiadas barbatanas de guarda-chuvas em alvos duros ou moles. Com os canudos de bambu projetávamos nas portas dos vizinhos ou nas caixas de marimbondos canudinhos de papel em cuja ponta prendia-se um alfinete. Rodávamos peões feitos com esmero e capricho pelo velho Foster, marceneiro de grande habilidade.

Nas ruas de terra, jogávamos bolinhas de gude em triângulos ou bilocas. Nos declives das ruas asfaltadas e sem movimento, rolávamos os nossos carrinhos de “rolemã” até a chegada do Ariovaldo o qual apelidamos de “Queixo de Pau” . O “Queixo” era um diligente comissário de menores que impunha respeito pelo seu tamanho, seu porte atlético e, principalmente, pelo seu queixo proeminente que assemelhava-se ao de um personagem de história de quadrinhos chamado de “Queixo de Ferro”. Ariovaldo tomava os carrinhos de “rolemã”, “dedava-nos” aos nossos pais e ameaçava levar a denúncia até o Juiz de Menores. Para não perder a viagem, o saudoso “Queixo de Pau” sequestrava os cabos de aço que guardávamos em nossos bolsos na eventualidade de um conflito. Com algum bando rival.

Os brinquedos de hoje são muito mais bonitos, sofisticados e inofensivos. Estimulam o nosso consumismo e atenuam a nossa criatividade. São maravilhosos engenhos de tecnologia que, certamente, deixariam de queixo caído o cuidadoso e responsável comissário Ariovaldo.

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