A poda

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Da janela acompanho essas vivacidades: primeiro a arvorezinha foi estendendo galhos, cresceu e, depois de mais de ano plantada, um tempo todo dela, ela se cobriu de branco. Sei de vários nomes que lhe servem bem, “neve na montanha”, parece que já ouvi “véu de noiva”. De repente, ela surpreende o olhar da gente ficando inteira branca.

Carlos, meu jardineiro, veio e podou a arvorezinha. Ela ficou feito um desenho geométrico, na altura do meu peito (ela estava bem mais alta do que eu) com dois braços mais vigorosos um à esquerda e outro à direita, e um mais fininho saindo do braço direito. Ficou deste jeito, vida interrompida, em três cotos.

Veio a chuvinha, depois mais duas ou três chuvas, duas ou três semanas, e já vejo folhinhas verdes, como ninhos, nos cotós. Dia a dia se ampliam o número de folhinhas, verdolengas, vão se espichando linhas fininhas verticais, galhículos, saídos dos cotos pelados.

Teve a poda, desapareceram os mini-frutinhos (depois que as florinhas caíram), sumiram todas as folhas. E veio o susto, ela morreu? Não, não morreu.

Vai se multiplicando, sem eu poder medir quanto. Depois de se vestir toda de verde, lá para julho do ano que vem, ela vai se cobrir de branco, é esta a fé, e eu a verei daqui, da mesma janela.

Queria um jeito de podar o meu olhar, feito o que fez meu jardineiro com a arvorinha: quem sabe nascia um olhar verdinho, depois da nudez do meu olhar-coto, crescendo galhos nos meus olhos, espichando mais minha visão, para eu ver coisas que nem sei que existem?

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