‘Comércio da Franca’, entre as melhores capas

Por: Sônia Machiavelli

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“Durante anos a rotina não se alterou. Os que iam à faculdade, os que buscavam o Fórum, os que rumavam para as compras no shopping, os que caminhavam para a igreja - todos por ali passavam rente, bem na frente, e nada viam. A avenida, uma das mais antigas e movimentadas da cidade, acolhe ao longo de um único dia milhares de transeuntes; mas durante anos ninguém viu a bocarra, o buraco, o desvão, o esconderijo, a caverna onde moravam há muito tempo as doze pessoas. Foi a capa do dia 11 de fevereiro de 2009 que as trouxe à luz.”

É com este parágrafo, seguido de mais dois, que Joelma Ospedal, Editora-Chefe do Comércio da Franca, apresenta a capa escolhida para figurar no livro As melhores primeiras páginas dos jornais brasileiros, recém-lançado pela ANJ - Associação Nacional de Jornais, que congrega 146 associados. Assinada por Dirceu Garcia, a foto da capa ocupa 90% do espaço da primeira página. Traduz de forma imediata, pelo caos e decomposição dos objetos acumulados no subsolo de uma construção interditada, o tipo de subvida levada pelos moradores. Daí a manchete metafórica: Vidas invisíveis.

As melhores primeiras páginas dos jornais brasileiros é primorosa publicação em papel couché, 40cm x 30cm, capa dura, apresentação de Judith Brito e Ricardo Pedreira, Presidente e Diretor Executivo da ANJ, respectivamente. Traz ainda palavras de J.Roberto Whitaker Penteado, Diretor-Presidente da Escola Superior de Propaganda e Marketing, que sob título “Os jornais e seu fascínio”, afirma, a respeito dos impressos: “Nenhum outro suporte é capaz de literalmente encapsular a informação, a cada período de 24 horas, manter um registro da vida e da história que se amolda à forma que os humanos encontraram para se inserir no tempo e no universo”.

Das capas, todas impondo ao leitor pelo menos cinco minutos de admiração, há aquelas que impactam pela comunicação imediata de sentimentos. É o caso, por exemplo, da Folha de Pernambuco, que no dia 2 de julho de 2006 manchetou em letras garrafais sobre fundo negro: Não Temos Palavras, em referência ao final França 1 x 0 Brasil, que nos tirou da Copa do Mundo. A sensação de luto é imediata. Esta capa resultou de votação entre editores divididos entre várias, diz o jornalista Henrique Barbosa. Outras, como a da Tribuna do Paraná, prestam homenagem, no caso, ao Papa João Paulo II, cuja foto de pé e perfil ocupa toda a extensão da página do dia 2 de abril de 2005, data de seu falecimento, com o título João é de Deus. Conta Rafael Tavares: “A edição final da primeira página foi atrasada o máximo possível naquela madrugada”.

A Folha de São Paulo, por seu Diretor de Redação Octávio Frias Filho, optou por mostrar a capa do dia 30 de setembro de 1992, composta por duas fotos - a de cima, onde se vêem parlamentares comemorando o 336º voto a favor do impeachment de Collor; e a de baixo, Collor chegando horas antes ao Alvorada, de onde saiu para não voltar, sendo substituído por Itamar Franco, inserido no canto esquerdo. Todo o resto da página está ocupado pela manchete Impeachment!, três linhas finas que condensam a informação e texto que começa assim: “Fernando Affonso Collor de Mello, 43, está afastado da Presidência da República”.

O Estado de São Paulo fez uma escolha emblemática do tempo noticiado e da história do jornal. Assim a comenta o Editor-Chefe Responsável Roberto Gazzi: “A ainda A Província de São Paulo, que tinha Julio Mesquita como ‘redactor-gerente’, publica no dia 16 de novembro de 1889, um sábado, capa completamente diferente. Sobre fundo totalmente branco, estampa apenas os dizeres ‘Viva a República’, em tipos gigantes. Em termos gráficos era tão ou mais revolucionária que o próprio movimento que resultara no fim da monarquia.”

É tentador escrever sobre assunto que nos apaixona. Mas o espaço é finito. Para comentar com um mínimo de precisão todas as capas, seria necessário um caderno. Trago então a título de conclusão as palavras de Judith Brito e Ricardo Pedreira no texto em que prefaciam o livro fazendo conexões entre jornalismo e cidadania: “(...) o que todas as primeiras páginas reunidas neste livro têm em comum é o correto exercício dos jornais como testemunhas da História, como meio de informação e formação. A ANJ tem orgulho do cenário montado neste livro com as primeiras páginas de importantes jornais brasileiros.”

Ver o Comércio da Franca neste rol traz à equipe que aqui peleja todos os dias muita satisfação e redobrada energia para continuar criando.


Trabalho sólido

Os filiados à Associação Nacional de Jornais estão acostumados a ver nos seus encontros nacionais e internacionais estes dois grandes profissionais, Judith Brito e Ricardo Pereira, nomes representativos do que se constroi de melhor e mais sólido na mídia impressa no Brasil.

JUDITH BRITO
Judith é diretora-superintendente do Grupo Folha e presidente da Associação Nacional de Jornais. Formada em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas, tem mestrado em Ciências Sociais pela PUC.

RICARDO PEDREIRA
Ricardo Pedreira é diretor executivo da Associação Nacional de Jornais. Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, trabalhou no Jornal do Brasil, revista Veja e TV Globo.

A ideia de reunir em livro as principais capas dos jornais brasileiros filiados à ANJ foi recebida com simpatia pelos associados. Lideradas por seus editores-chefes, as equipes se empenharam em pesquisar durante semanas, a fim de escolher a capa mais representativa de um momento de sua história. O livro demandou nove meses de muito trabalho. Mas o parto foi feliz, depois de gestação bem cuidada. Ressalte-se que é o primeiro do gênero no país.


Serviço
Título: As melhores páginas dos jornais brasileiros
Organizadores: Judith Brito e Ricardo Pedreira
Capa e projeto gráfico: Rita da Costa Aguiar
Editora: Aquarela

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