Corações de mel

Por: Eny Miranda

Para Sônia Machiavelli


“Ah! Que de abismos nos
roçam a alma!
Que de vagas colossais assolam nossos passos!

Haverá um porto?
Um colo de Deus?
Um pedaço de infância?
Um carinho de mãe?

É nesse momento
Que nos salva um coração amigo”.

Regina Bastianini
in Ode ao amigo
 

Quando crianças, parece que nossas dificuldades nunca chegam a atingir as dimensões da tragédia. Não que tragédias não ocorram na vida de crianças. É que, diferente do adulto, o coração menino está permanentemente aberto ao belo, ao suave, ao doce que a vida oferece, mesmo quando o belo, o suave e o doce lhe são servidos em pequenas porções. E os olhos da criança sabem guardar a virgindade do primeiro olhar: o mesmo susto, o mesmo espanto - o “pasmo essencial” de quem sabe, igualmente, sentir-se “nascido a cada momento / para a eterna novidade do Mundo”, como Alberto Caeiro, em O Guardador de Rebanhos.

Meus males de primeira infância trazem-me lembranças doces. Vejo mamãe se dirigindo ao quintal, colhendo folhas frescas de árvores frutíferas (laranjeira, figueira...) e, com elas, fazendo uns xaropes deliciosos (os “lambedouros”, como os chamava), temperados com mel, vinho moscatel flambado (para retirar-lhe a fração alcoólica) e muito, muito amor. Essas alquímicas poções, engendradas no calor aconchegante da cozinha de nossa casa, nos ensinavam suaves caminhos de cura, e nos ajudavam a aceitar os líquidos, às vezes amargos, formulados por papai e manipulados no branco asséptico de um estranho laboratório. (Destes, não me lembro bem os gostos).

Hoje, caminhos suaves de cura para muitos males nos são apontados por outros corações, que reabrem o adulto ao belo, ao suave, ao doce, e as retinas cansadas aos primeiros olhares de espanto, de graça e de beleza; que nos conduzem de volta aos sagrados espaços do amor, e nos abrigam no “colo de Deus”; que devolvem “um pedaço de infância” às nossas vidas, quando “abismos nos roçam a alma”; e nos permitem reviver, na ausência, “um carinho de mãe”: são os Corações de mel, trazidos por amigos queridos.

Sou grata a esses alquimistas do bem, que nos oferecem, em um domingo qualquer, sem prévio aviso, a possibilidade de volta ao aconchego da cozinha materna, para a manipulação de nova fórmula de amor; gratíssima aos amigos-médicos-mágicos, que nos abrem aos olhos, à alma e ao saber, a intimidade de um doce coração - um coração de mel e chocolate, mestre em novos caminhos de cura para males adultos; guardião de portas inefáveis, mas ainda possíveis: as da última infância.

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