Deus de Caim e os avessos do homem

Por: Sônia Machiavelli

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Foi relançado em agosto deste ano, em São Paulo, na Casa das Rosas, o romance Deus de Caim, do mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke. Dele Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto disseram em 1968, quando da primeira edição, ser ficcionista que chegava “como revelação e marco da literatura brasileira”. Naquele ano, de lembranças sombrias na história do País, o livro foi premiado com o prestigioso Walmap. Mas contrariando o entusiasmo de Rosa, a aposta de Amado e a elogiosa crítica de Olinto, foi lido por poucos. Inconformado com o silêncio dos últimos quarenta anos, Nicodemos Sena, também escritor e atual presidente da Ong Letra Selvagem, criada em 2007 e sediada em Taubaté, batalhou em muitas frentes. Conseguiu trazer a obra de novo à cena literária.

Sena quis ressuscitar um escritor de qualidades extraordinárias, que morreu esquecido, há dois anos. Não apenas porque se recusou ao marketing a que se sente obrigado no Brasil aquele que quer ver suas obras ganhando alguma visibilidade. Também porque nosso país empobreceu-se intelectualmente nas últimas décadas e não formou segmento expressivo de leitores capazes de compreender, como sugeriu outro dia Carlos Heitor Cony na sua coluna da Folha, que existem seres pensantes além do universo do showbiz . Assim, “a Antiguidade inteira, as Guerras Púnicas, a Renascença, A Era das Navegações, a Dieta de Worms, o Édito de Nantes, a Revolução Francesa, a Invasão da Normandia é massa informe de atos e fatos que se amontoam no espaço. Homero, César, Leonardo da Vinci, Colombo, Beethoven, Napoleão, Hitler e Carmen Miranda são contemporâneos e, além de terem vivido na mesma época, têm em comum a ausência nas colunas e noticiários da mídia.”

Para este tipo de leitor, que por contingências diversas vem se perfilando há décadas, Deus de Caim torna-se ilegível. É que a intertextualidade, recurso estilístico característico de Dicke, cria um discurso de incontáveis referências. Literatura, música, artes plásticas, história, geografia, filosofia, filologia, religião, cosmogonia constroem caminhos para entender a saga dos irmãos gêmeos Jônatas e Lázaro, os Caim e Abel de um relato muito revisitado. Há que se concordar com Sena quando se lê o que disse em entrevista por ocasião do relançamento: “num país de milhões de analfabetos, e de outros milhões de pessoas alfabetizadas mas que não entendem o que lêem (os chamados analfabetos funcionais), e outros tantos que lêem e entendem, mas se viciaram em literatura de entretenimento ou de auto-ajuda, editar livros como este de Dicke passa a ser empreitada espinhosa e arriscada, do ponto de vista financeiro”. É verdade. Por outro lado, reinstaura o espaço da genuína literatura, arquitetada em arquétipos que trazem para a alma do leitor representações de desejo, sexo, vida, morte, traição, inveja, ódio, amor, cultura, tudo enraizado nas cavernas e labirintos de uma estrutura complexa que na sua superfície reponde pelo nome de Pasmoso. Esta é a cidade onde tudo acontece e já foi associada pelos críticos à Macondo de Gabriel Garcia Marquez, à Komala de Juan Rulfo, à Yoknapatawpha de William Faukner: todos espaços míticos, domícilios do inconsciente coletivo recuperados de forma hábil, inteligente e apaixonada pelo autor. Neste mundo que é ao mesmo tempo arcaico e burguês, os conflitos da família Amarante recontam meia dúzia de histórias que giram em torno do eixo primevo que é o do amor de Lázaro por Minira, ameçado de forma letal por Jônatas. Dessa tensão nasce o romance que se contrai e se expande num ritmo de sístole e diástole. Este é o movimento que procura refletir a vida em todas as suas pulsações e o ser humano em todas as suas pulsões.

Qualquer análise que se empreenda com seriedade e sem medo acabará desaguando no reconhecimento da densidade, lucidez e coragem do autor, mergulhado por inteiro neste exercício sofrido que é o de retirar véus a tantos avessos.

Ler Dicke é nunca entreter-se. É incomodar-se a cada página. É sair da leitura com muitos acréscimos em termos de compreensão das áreas enodoadas da alma e de aceitação dos sentimentos menores, mesquinhos, muito humanos, que insistimos em ocultar porque afinal existimos na sociedade da imagem, do espetáculo, do consumo, do descartável. E da falta de sentido que pode transformar a vida num grande absurdo.


ROMANCISTA INJUSTIÇADO

Ricardo G. Dicke

Mesmo para quem gosta de literatura brasileira e se interessa pelos bons autores em língua portuguesa, o nome de Ricardo Guilherme Dicke soa desconhecido. No entanto, quando do lançamento de seu primeiro romance, Deus de Caim, disse o autor de Grande Sertão, Veredas: “Surge um romancista de tipo novo, um homem capaz de abalar a nossa ficção.”

Mas o tempo passou, Dicke continuou escrevendo com a mesma qualidade e nada de ser reconhecido pelo público. Entre as muitas razões para isso, sempre foi citada a sua recusa em fazer concessões aos detentores de poder no mundo editorial. Escrevia como queria, tematizava sobre o que lhe importava. Talvez tivesse certeza de que assim construía obra de arte atemporal.

Nascido em 1936, em Chapada dos Guimarães, no interior do Mato Grosso, passou ali a infância, cuidado pelos pais, a mãe professora primária, o pai fazendeiro de origem alemã. Adolescente, foi para o Rio, onde trabalhou como repórter e artista plástico. Em 1968, ano emblemático para o Brasil de liberdades ameaçadas, publicou Deus de Caim e resolveu voltar ao seu Estado. Fixou residência em Cuiabá. Nesta cidade continuou escrevendo ficção, pintando telas e trabalhando em jornais. Ao morrer, em 2008, deixou títulos como o citado Deus de Caim, Caieira, Madona dos Páramos, A Chave do Abismo, Último Horizonte, além de inéditos que se encontram em poder da viúva.


Serviço
Título: Deus de Caim
Autor: Ricardo Guilherme Dicke
Editora: Letra Selvagem
Páginas: 399
Preço: R$ 49,90
Onde: submarino.com

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