Fagulhas

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Agora virou avenida Avenida Santos Dumont, mas de primeiro era só a linha do trem.

Os vagões da Companhia Mogiana chegavam de Restinga, passavam em frente do curtume dos Pulicanos. Vinham puxados pela Maria Fumaça, uma máquina de ferro que soltava fagulhas e fumaça pela chaminé. Quando passava atrás da Cotai, a fábrica de tecidos, ela apitava muitas vezes. Era o sinal para o vigia fechar a cancela.

- Cancela?

- É, cancela. Era uma espécie de porteira com rodinhas que corriam em cima de trilhos. O vigia empurrava a cancela comprida e fechava a passagem. Nem gente, nem carroça, nem charrete, nem caminhão, nada não podia passar.

Por um tempo, a Vila Nova ficava separada do resto da cidade. Mas, naquele tempo, ninguém tinha pressa, todo mundo esperava o trem passar e não reclamava.

Ali na esquina da frente, ficava a venda dos Irmãos Pasquino que está lá até hoje. Aqui na frente já existia essa casa grandona, da Dona Zezé e do senhor Valter de Oliveira, e na esquina de cima era a sorveteria do Sô Afonso.

- Peraí, Sô Chico, antes ficava a casa do Dito: aquele que jogava no gol do Sãopaulinho.

- É verdade, Eurípedes. Mas o Dito já morreu... O Niquinha, que morava em frente, também morreu.

- Morreu quase todo mundo... Da minha freguesia antiga não sobrou quase ninguém.

As pessoas vão desaparecendo, tudo vai mudando. Parece que faz quinhentos anos e, na verdade, faz só cinqüenta anos.

- Mas era outro tempo, a gente vivia noutro mundo.

- Era, Eurípedes. Era outro mundo. A gente fala e as pessoas nem acreditam...

Da linha pra cima, não existia nem um paralelepípedo, era só chão. E a Vila Nova terminava ali onde fica o Colégio das Freiras. A última casa era a casa do João Menino, pai do Raul e do Ronan, depois era só a estrada pro Engenho Queimado. Fala pra esses meninos, Eurípedes, fala pra esse povo aí que jeito que era essa vila nossa.

- Que povo, Sô Chico. Todo mundo já bebeu seu arranha-gato, já foi embora almoçar.

- Também vou indo, Eurípedes. A essa hora a Dita já fez o almoço, a comida já está esfriando.

Chico Franco dá adeus, tocando ligeiramente a aba do chapéu, desce com dificuldade o degrau, apoiando-se na bengala e caminha lentamente pela Rua Simpliciano Pombo acima. O terno branco, a gravata cinza parecem pesr como carga, e seu andar revela esforço.

Eurípedes Barbeiro fica um tempo na porta do bar, ao lado de sua residência, observando o amigo, até ele dobrar a esquina da Rua Francisco Marques, e sumir para os lados do campo do Internacional.

Eurípedes Barbeiro, embora muito vivido, é homem humilde, pouco dado a reflexões filosóficas. Por isso, jamais saberia explicar a imagem que lhe vem a mente: a de um trem-de-ferro resfolegando, em esforço desesperado, para vencer mais uma subida.

Eurípedes apenas se sente cansado e frágil, com os olhos cheios de fumaça,

Sente que agulhas lhe queimam as retinas.

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