Parto difícil de Meg

Por:

Everton de Paula
Acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 42 anos

Pobre Meg! Não sei de nenhuma outra cadelinha que tenha tido um parto assim. Cinco dias após a data prevista para começar a gravidez, montes de mãos nervosas não paravam de apalpar-lhe a barriguinha, para sentir se estava crescendo. Todo mundo começou desconfiando da possibilidade de Meg vir a ser mãe, e ficando tremendamente descrente da masculinidade de Zenão, seu bom marido.

No décimo dia, nossa família e os “parentes” do marido de Meg marcaram reunião. Meg precisava ser examinada por Thais, minha filha mais velha, médica veterinária. Ela nos disse que em negócios de cachorros, é cedo para dar palpites antes de um mês após o dia do matrimônio.

Minhas filhas, ainda pequenas, submeteram Meg a novo teste de palpação. Fizeram-na sentar com as patinhas no ar, para ver se seu ventre estava se tornando mais roliço. Puseram-na em contraluz, para observar se sua silhueta ia ficando mais rotunda. Até seu modo de andar não escapou de uma inspeção.

“Gravidez torna o andar pesado”, falava a experiência de minha mulher. De fato, parecia que o caminhar de Meg era mais pachorrento do que o normal.

“Olha aqui, Thais”, fui logo dizendo, “será que você não poderia dizer como é que as cadelas andam quando estão...?” Só quando ouvi o final da gostosa gargalhada de minha filha veterinária é que compreendi a que ridícula neurose a gravidez de Meg nos tinha levado.

Dez dias antes do provável “feliz sucesso”, novas perguntas à Thaís. Desta vez, ela admitiu que lhe parecia sentir qualquer coisa aqui em cima, por baixo das costelas, uma coisa que talvez pudesse ser um feto.

“Um só?” choramingou Júlia, minha filha mais nova. Aquele dia foi triste. Quatro cachorrinhos, pelo menos, esperava a garotada. Mas Meg era uma poddle toy, graciosa e pequena. Não poderiam sair quatro cachorrinhos dali.

Passaram-se alguns dias até que, finalmente, uma noite, Meg veio pedir socorro.

“Hei, pessoal, a hora chegou!”, pareciam dizer seus latidos.

Custou, mas nos levantamos. A bichinha estava tremendo. Telefonamos para Thaís que disse sonolenta: “Tenham calma. Mesmo que ela esteja em trabalho de parto, não haverá novidade senão à tardinha!”

Foi à noitinha. Meg escolheu a nossa poltrona mais cara e mais limpinha. Depois de um gemido prolongado, surgiu uma bolinha peluda, rosadinha.

“Thais!, ela já está dando à luz.”, disse minha mulher.

“Está vendo, o que é que eu dizia?” E logo passou a nos dar as instruções que nós lhe daríamos nas mesmas circunstâncias: não faça nada, que Meg sabe dar conta do recado.

E acabou dando mesmo. Enternecidos, excitados, nervosos, vimos a cadelinha dar à luz mais duas bolinhas, e estava tão compenetrada, tão maternal, tão humana que nos deixou comovidos.

Chamamos as meninas. Depois veio a “sogra” de Meg toda orgulhosa, toda amabilidades. Olhou para os três cachorrinhos e perguntou: “Qual é o nosso?”

Diga-se que os “parentes” de Meg souberam se compenetrar de suas responsabilidades. Thais recusou quando, delicadamente, eles quiseram pagar a conta de veterinário. Mas eles retrucaram: “De jeito nenhum! Despesas, é o marido quem paga!”

Quatro horas depois da délivrance, nos ocorreu que Meg devia estar com fome. Preparei uma grande tigela de carne moída de primeira, mal passada, arroz japonês fervido, e misturei num sopa de cenouras e tutano. Solicitamente, me aproximei de Meg, que estava amamentando a descendência. Coloquei-lhe a tigela perto do focinho e murmurei: “Meg, minha bichinha, você mostrou quanto vale. Prove aqui!”

Nem me deu tempo de terminar. Farejou o superpetisco e... glup!...

Naquela manhã. Meg fez glup várias vezes. Depois passou a consumir diariamente boa quantidade de carne moída da melhor, hortaliça, gemas de ovos, pílulas para fortificar o leite, dois comprimidos de vitaminas e um pouco de leite de vaca. Fora a ração.

Palavra que andei com vontade de perguntar aos “sogros” dela: “Como é? Não é o marido quem sustenta a família?”

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