O jumentinho

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O jumento, chamado ainda de burro, jegue, asno, burrico, jerico, é um mamífero de tamanho médio, focinho e orelhas compridas, utilizado desde os tempos pré-históricos como animal de carga. Os ancestrais selvagens dos jumentos foram domesticados por volta de 5 mil anos antes de Cristo, praticamente ao mesmo tempo que os cavalos. Desde então têm sido utilizados pelos homens como animais de carga e montaria. Sua origem está ligada à Abissínia, onde era conhecido como onagro ou burro selvagem. Nasce do cruzamento entre burro e cavalo. Suas características históricas: robustez, capacidade de adaptação a caminhos acidentados e a meio ambiente adverso, docilidade; pernas mais longas e, portanto, maior velocidade, maior facilidade de treino.

O antigo convívio com a espécie humana traz um grande número de referências culturais na literatura e no folclore popular. As usam a figura do burrinho para representar os humildes. , escritor nascido por volta de 150 anos depois de Cristo e educado em Atenas, tem uma obra intitulada . O jumento foi por muito tempo o símbolo da ignorância, como em , de . é outro exemplo de fábula onde um menino mau é transformado num burrico. Não nos esqueçamos de que Sancho Pança, aio de Dom Quixote, trazia um jumento como sua montaria nas aventuras fantásticas de seu senhor. Na literatura brasileira, assim como no folclore, tem especial destaque nas obras de Guimarães Rosa e na literatura de cordel. Padre Antônio Vieira chamava-o “nosso irmão”, num rasgo de inspiração franciscana.

Luiz Gonzaga compôs um baião chamado Apologia ao jumento, em que diz que esse animal foi o maior desenvolvimentista do sertão e ajudou o Brasil a progredir arrastando lenha, madeira, cal, cimento, tijolo, telha; fez açude, estradas de rodagem, carregou água para a casa do homem, fez a feira e serviu de montaria. Curiosamente, tem lá seus apelidos. Interessante o de relógio, porque anuncia, no sertão, à hora certa, a chegada da meia-noite. Outros apelidos: babau, gangão, bregreço, imagem do cão, seresteiro, sineiro, astronauta, estudante, professor, advogado das bestas...

Na Bíblia é citado por mais de 130 vezes, notadamente no Antigo Testamento. Há uma passagem em Zacarias, um dos profetas menores, capítulo 9 versículo 9, com os seguintes dizeres proféticos: “Exulta de alegria, filha de Sião, solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu rei, justo e vitorioso. Ele é simples e vem montado num jumento, no potro de uma jumenta.” Sião é o nome de um monte geográfico sobre o qual se situa Jerusalém. E o rei “justo e vitorioso”, a que o profeta alude, seria Jesus Cristo.

Com efeito, quase 400 anos mais tarde, após a profecia, Jesus se encontrava frente a Jerusalém, acompanhado de seus doze apóstolos e uma pequena multidão. Esta cena é descrita nos evangelhos de Marcos (11, 1-11), Mateus (21, 1-11), Lucas (19, 9-38) e João (12, 12-19). Em Marcos, diz Jesus a dois de seus discípulos: “Ide à aldeia que está defronte de vós; e, logo que ali entrardes, encontrareis preso um jumentinho, sobre o qual não montou homem algum; soltai-o e trazei-mo.” Obedecida a ordem, Jesus assentou-se sobre ele e entrou triunfante em Jerusalém, sendo aclamado: “Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor.”

Observe-se que, a esta época, estava estabelecido o império romano, cuja cavalaria era sinônimo de poder. Jesus poderia ter entrado em Jerusalém montado num cavalo, mais forte, mais ágil, imponente. Mas não o fez; escolheu em seu lugar um jumentinho para não apenas demonstrar a humildade do filho de Deus feito homem, como também para que se cumprisse a profecia de Zacarias.

São pequenos detalhes como estes acima que me fazem repetir uma frase por demais conhecida: quanto mais conheço certos homens, mais admiro os animais.

Everton de Paula
Acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 42 anos

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