A fábrica

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Às seis e trinta e cinco da manhã a sirene toca. O som bizarro é altíssimo, desconcertante. Causa terror àqueles que ainda estão de fora dos pesados portões de ferro. Por isso, todos já estão no interior do barracão quando o longo e irritante barrido começa a perder intensidade e vai baixando, baixando, até desaparecer, colapsado. O universo interior parece estreito, composto de corredores formados por máquinas e habitado por pessoas que correm contra o tempo. O som ambiente é o de um turbilhão em que predomina o ruído agudo dos motores de alta rotação, lutando contra braços operários que parecem querer pará-los à força, atritando fundos de sapatos contra os roletes das lixadeiras. Ao fundo ouve-se ainda o matraquear dos compressores, arremetendo-se contra os reservatórios de ar das prensas hidráulicas. O chão treme a cada fração de minuto com as hercúleas marteladas dos balancins, cravando facas de aço nos rijos sepos de madeira, moldando peças de couro que comporão solados e cortes de calçados nas seções subseqüentes.

Na linha de montagem o barulho parece mais distante. Porém, ali os parâmetros são outros: tempo e precisão. A esteira elétrica concede o mesmo e exato espaço de tempo para cada trabalho igual. Apontar, tachear, passar a cola, montar... O carrinho traz a peça e espera pela execução do trabalho. Vencido o lapso temporal, desliza para a seção seguinte em silêncio, com a peça executada ou sem ela. E outro estaciona diante do operário, trazendo nova peça para execução. Se a anterior não foi concluída, o prazo diminui, porque o artífice terá de terminá-la e executar o trabalho na recém chegada, no tempo reservado para esta última.

Pela manhã a tarefa parece fácil. Às três da tarde dá a sensação de que a esteira se acelera. Às quatro, o físico já mostra cansaço, as vistas vez ou outra embaçam. O cérebro, a princípio, perde clareza. Depois, começa a se rebelar contra a repetição constante, a monotonia. E altera, de ofício, o padrão seguido até ali. Cria, inventa, transforma, parâmetros e medidas. O chefe da seção, porém, não admite invenções nem rebeldia.

Retirando uma peça da esteira, deposita-a ao lado do operário e ordena: “Zé, refaça, que não está bom. Veja a pala, está torta...”

A esteira que parecia acelerada, agora corre mais ainda. E sapatos começam a se amontoar ao lado do miserável, que se desespera. O chefe insiste: “Não demora muito, Zé, senão atrasa todo mundo...”

Há sempre um olhar de escárnio vindo de algum canto. E muitos outros, felizes, vêm da seção da frente, porque o trabalho começa a diminuir por lá.

Mas, novamente, a sirene toca. E o mesmo som que assombrava pela manhã, agora soa doce, alegre, como um simpático grito de alforria!

José Borges da Silva
Procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras

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