Filó de luz

Por: Maria Luiza Salomão

Minha florista é amiga de quase-infância do meu marido, e tem, no cartório, nome de santa, mas pode ser nome de crisálida, eu li. Morena, biscuit, “pequena notável” nos traços brasileiros e nos gestos prestativos, adequados ao seu ofício de corpo e de alma, ela me conquistou. Passou a ser “a minha” amiga também, há quase 30 anos.

Fui tão correspondida na amizade que passei a ganhar, assiduamente, flores do seu jardim, nas diferentes estações do ano. Rosas, antúrios (brancos, vermelhos e cor-de-rosa), cravos coloridos, miudinhos e cheirosos, narcisos, lírio-da-paz, e também grandes folhas, em formatos diferentes.

Passei a chamá-la, carinhosamente, de “minha” florista. Suas flores são idealizadas no plantio, pelo marido agrônomo e ela mesma. Sinto a sua generosidade no ato de colhê-las, tirá-las do seu habitat natural, para oferecê-las a mim.

Amizade deveria ter um prefixo ou um sufixo intrínseco à palavra, tipo “co-” ou “com”. O amigo compartilha, consente, comemora, colabora, conversa, comove e se comove conosco. Quando meu pai morreu, ela não me trouxe flores. Com o olhar meigo e compassivo chegou com mini-pasteizinhos, um imenso tabuleiro deles. Atenta enfermeira da minha alma.

Organizei em casa, alguns anos atrás, um sarau com amigas que durou certo tempo, gostooooso, mas para mim curto. Era Páscoa e decidimos, em grupo, não trocarmos presentes comprados, mas faríamos a brincadeira de “amiga invisível” com algo que cada uma iria preparar especialmente - para a amiga sorteada. Desde o dia em que sorteamos o nome da “amiga invisível”, a minha florista passou a rezar, sempre no mesmo horário, todos os dias, para a sua amiga invisível. Nós nos oferecemos bordados, cantos, cena de filme, foto, poesia, flores do jardim, comidas, delicadezas genuínas brotaram, de uma para a outra.

Foi emocionante e memorável a troca da minha florista com a sua amiga invisível.

A amiga invisível pela qual a florista rezou estava passando por problemas (que ninguém no grupo sabia). Ela nos revelou, emocionada, ao receber o presente das orações da florista que, no mês que precedia a nossa Páscoa, sentiu a presença do amparo de uma luz. Neste dia, creio eu, urdimos uma rede entretecida, filó de luz humana. Foi uma bela tarde de um sábado.

É um processo esquisito este da escrita. Difícil escrever sobre algo que, para sentir/pensar intensamente, precisamos silenciar. Às vezes sinto um tipo de receio arcaico de que, ao falar ou escrever, se perca no ato da escrita o “it” misterioso, e desande o tule sutil da existência.

Apesar do meu medo, arrisco hoje este fio de palavras, que é hoje - a minha oração pela florista, que me ajuda a preservar o farnel de alma, cosido em filó de luz azul.

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