Semana de cão

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Há dias que não se deve sair de casa. No meu caso, talvez uma semana estivesse de bom tamanho. O filme Um Dia de Cão, que consagrou o ator Al Pacino, ou Um Dia de Fúria, com Michael Douglas, tratam daqueles dias que é melhor não sair. Tudo começou quando, ao chegar na minha casa na hora do almoço de uma sexta-feira ensolarada, estranhei as luzes acesas dos quartos, pois sou um zeloso ecologista que economiza água e energia.

Quando me deparei com coisas e roupas esparramadas sobre a cama e a porta-veneziana do dormitório aberta tive a certeza que algo ruim havia acontecido. Recuei para a rua e chamei a polícia que, depois de meia hora, apareceu para verificar o ocorrido. Nada mais havia a fazer, a não ser lamentar as perdas materiais, fazer o B.O. e colocar mais e sofisticadas trancas nas prisões que se tornaram nossas moradas.

No dia seguinte, um sábado, pedimos pizza para o jantar. O entregador chegou esbaforido e logo se foi. Ao abrir a caixa, surpresa, a receita era diferente da que havia pedido. Pouco depois, chega o entregador cheio de desculpas, havia percebido o erro e queria destrocar a pizza. Fria. No domingo de sol, fecharam a piscina do clube para manutenção.

Na segunda-feira, fui comprar uma lata de tintas. Ao chegar ao Lab, só fui perceber que a lata tinha aberto quando minha calça e sapatos começaram a amarelar e respingar para todo lado. Bom, “meu carro é vermelho e já não uso espelho para me pentear”, o piso do carro ficou amarelo ouro. Até o molho de chaves amarelou. A Suvinil e a loja de tintas Leão, situada na rua da Estação, até ontem não haviam me dado qualquer resposta sobre a minha reclamação pelos prejuízos sofridos causados pela venda de uma lata de tinta aberta: uma calça jeans velha e desbotada e um sapato novo da Opananken.

Na mesma segunda, fui ao supermercado fazer compras. Enquanto eu dava um rolê pelas gôndolas, não percebi que o tempo estava fechando, nuvens negras se formavam para os lados do Distrito Industrial. Quando passei pelo caixa, a água caiu de uma vez. Depois de quase quarenta minutos parado, esperando melhorar a enxurrada e a chuva torrencial, acabei ensopado ao colocar os pacotes no porta-malas. Pensa que acabou?

Viajei para Passos na terça. O trecho mineiro está bem conservado, mas logo após passar pelo trevo de acesso à terra natal do Luiz Cruz, ouço um ruído fortíssimo e um baque no volante. Um buraco na pista. Mas não foi nada de mais, apenas um susto, ainda bem que não era o Márcio Nalini ou a Andréa Liporoni dirigindo em alta velocidade. Quando cheguei ao hotel em Passos é que percebi o prejuízo: a calota de um dos pneus dianteiros havia desaparecido. Por via das dúvidas, minha rotina da semana se alterou. Ia do hotel para a faculdade e voltava correndo, antes que algum raio caísse sobre minha cabeça.

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor

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