Estilingada

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Naquele tempo, quando ainda se amarrava cachorro com linguiça, minha família morava na rua José Bonifácio. Na esquina da rua do Comércio, havia a delegacia e logo adiante a feirinha do Kellner, o hotel Cacique e a farmácia do pai do Osorinho. Na esquina da Ouvidor Freire, a venda do Felão, a padaria do João Teixeira e, logo depois, a casa da Brotinho, uma lourinha das mais populares, da família Rached.

Ao lado de nossa casa, morava o Geraldo Bombicino, um industrial calçadista, casado com a dona Nabiha, que vem a ser os pais dos atuais proprietários do posto Galo Branco. Meu pai era simpatizante do PTB e do Getúlio Vargas, até mantinha em casa uma escultura do velhinho com uma cuia de chimarrão que tinha trazido de uma viagem ao sul. O Bombicino era, provavelmente, adepto da UDN. Nas eleições presidenciais de 1960, para escolha do seu sucessor, Juscelino Kubitscheck apoiou o general Lott contra Jânio Quadros, da UDN. Vivíamos na pré-história do marketing político. A campanha de Jânio distribuía um pequeno bottom com uma vassoura (dizia que ia varrer a corrupção) e o Lott, que tinha sido Ministro da Guerra, fez uma espadinha dourada, que nós usávamos com orgulho na lapela.

No hotel Cacique, viviam uns moleques encapetados. A diversão deles era dar tiro de chumbinho na gente, que brincava no quintal do fundo da casa. Minha mãe vivia reclamando deles, pois furavam nossas roupas esticadas no varal e poderiam machucar alguma das crianças, já que passávamos boa parte do tempo por lá, nos treinos da Prudentina. O máximo do revide era dar umas pedradas neles, mas a luta era desigual.

Já a janela do nosso quarto ficava virada para a divisa com o Bombicino e nossa casa era um pouco mais alta que a dele, portanto a gente podia ver dentro da casa dele. Em pé na cama, meu irmão mais velho viu uma vassoura enorme do Jânio pendurada na parede do corredor do vizinho e não teve dúvidas. Ao melhor estilo dos moleques do hotel Cacique, arrumou uma atiradeira e umas pedras britadas. Da janela do nosso quarto, ele mandou uma estilingada que acertou em cheio a vassoura, que se espatifou no chão. Uma pontaria certeira e impossível, igual daqueles mocinhos dos filmes de cowboy que passavam nas matinês do cine São Luiz.

Apesar do pacto de silêncio, alguém confessou o ocorrido para minha mãe. Aflita, ela foi conversar com a vizinha Nabiha para explicar o que havia acontecido e se desculpar pela “arte” do filho. Dando risadas, ela disse que não era nada e confidenciou: “na verdade, aquela vassoura pendurada na parede era muito feia, ainda bem que quebrou, assim o Geraldo não vai ligar para o sumiço dela”.

Jânio ganhou as eleições presidenciais mas logo depois, renunciou. Em seguida, mudamos para a rua Júlio Cardoso, vieram os militares e vinte anos de ditadura, silêncio e opressão. A estilingada tinha que ter acertado era no Jânio verdadeiro, aquele demagogo populista.

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor

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