Magnólias

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Um dia me apaixonei por uma muda disposta à frente de uma floricultura. Magnólias. Tinha em mente um filme visto recentemente, Magnolia, de 1999, com nove personagens que moram na mesma área cortada pela Rua das Magnólias, em Los Angeles, EUA. O filme discute temas difíceis e controversos como pedofilia, homossexualidade, a sexualidade humana, enfim. Filme denso sobre a falta de desenvolvimento dos pais e as sombras que recaem, “claro enigma”, sobre o desenvolvimento dos filhos.

Alguns estudos consideram a magnólia como a primeira flor que surgiu no planeta, ela tem um sistema anatômico e reprodutivo bastante primitivo (o que serve aos temas do filme que assisti, falando da sexualidade dos humanos, primitiva).

Não sei se a lembrança do filme me influenciou, mas assumi a maternidade da magnólia lilliflora, que se mostra lentamente, e não cumpre o prometido em abundância floral. Às vezes suas folhas ficam muito feias, parece que é a terrível ferrugem, mas o jardineiro me acode. Não é. Será uma boa muda? O lugar onde a aninhei é ruim? Ou é assim mesmo e eu que...

Uma nudez nos seus galhos atravessa estações. Acordo e vejo uma só flor em forma de tulipa, com seis pétalas, cor de maravilha, grená, fúcsia, tantos nomes para a cor, e ela nasce ao final do galho, como um pião ao contrário.

Aguardo a roupa de festa da árvore anã, como vi no Google, só-flores. Ramalhete fincado na terra. Mas minha árvore é sóbria, discreta, dá uma flor, e pronto! A gente esquece, ela dá outra flor e pronto! Nem olho mais, e vem flor brusca, no repente.

Parece que ela se prepara e me segura. Por que a pressa? É que posso estar ausente no dia em que ela se florir em trezentas mil flores! Mas, quem sou eu para ela, afinal? Mas também...para que ter cem flores, se posso mirar esta, descobrir o seu miolinho, admirar a exata cor, cheirar o seu perfume? Única até morrer, e depois o chegar de outra, e depois outra. Não acontece deste modo o fado de todos nós? Nascer só e morrer só, infinitas vezes!

Vejo um monte de botões ao final dos seus galhos, mas já vi este espetáculo antes. Um a um se apresentam, alguns morrem antes de desabrochar. Cultivo, entretanto, uma certeza rosa, um cálice, uma pequena lua despetalada em cor, um ovinho rosa no meu jardim. Efêmera e frágil aparição, com tempo certo. As vizinhas Hibiscos florescem o ano todo, aqui arbusto disciplinado de “beijos” vermelhos, ali arbusto esparolado em galhos, de ‘beijos”amarelos. Não ressinto as ausências das vizinhas.

Magnificamente magnólia, ela resta grená e não há como ignorá-la no meio das pedras, entre as folhas, flertando com os gerânios coloridos da sacada.

Uma flor só-sozinha no meu verão. Bem diferente do filme Magnolia, somos uma dupla mãe-filho em crescimento. Não crescemos do mesmo jeito, temos naturezas distintas, vejo suas necessidades, e ela me lembra, todos os dias, que ela tem o seu tempo de crescer, de florescer, e que cabe a mim lhe fornecer espaço, tempo, adubos.

Água e sol a magnólia frui, a partir das suas raízes. Ela me dá, contados, vislumbres do seu colorido ser. Como os filhos, que alargam a paciência e a humildade dos pais, e oferecem, como prêmio, floridas surpresas.

Maria Luiza Salomão
Psicóloga, Psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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