A jardineira

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Olha, jardineira pode ser muita coisa: é nome de um famoso restaurante em São Paulo, a Jardineira Grill; é pano bordado, “jardineiras curtas e compridas, confeccionadas em algodão reforçado...”; é aquela considerada a marcha-rancho mais antiga, presente no cancioneiro carnavalesco do Brasil: “ó jardineira, por que estás tão triste...”; é ainda uma especiaria de carne de vaca com feijão verde; é a gentil mulher que faz os serviços de jardinagem; é a floreira, recipiente que não vaso onde se colocam flores... Pode ser também a professora do antigo jardim-de-infância...

A minha jardineira não é nenhuma dessas coisas. A jardineira que trago na memória remonta à minha infância, e é uma só: um veículo pouco espaçoso, engraçado, alaranjado, pequeno ônibus adaptado para curtas viagens pela estrada de terra que unia Franca a Claraval; ia tranquilo porque daqui até lá é uma descidona que dá gosto; mas voltava a duras penas, subindo a serra do lado de Minas, resmungando, resfolegando, soltando fumaça pelas ventas do radiador. Era, talvez, a pior condução de que se tinha notícia, mas, não sei bem o porquê, era também a mais querida, a que deixou mais saudades.

Diz um poeta que “Pra andar de jardineira, há de ser bem paciente; para em tudo o que é porteira pra poder subir mais gente.”

O motorista, de nome Décio Tarantelli, era um tio distante. De modo que pude pegar umas caronas de menino curioso, olhos muito abertos para o poeirão que aquele trem fazia quando parava para abrir uma porteira, nas estradas vicinais. A cada parada entrava mais gente, porco, galinha, gaiola, tacho de cobre enfumaçado de preto, cesta de ovos... Uma babilônia caipira perdida nas serras de Minas. E continua o mesmo poeta: “O cobrador fica nervoso, mas controla e, calmamente, manda o povo andar pra trás pra caber mais um na frente. Entra mais uma família com uma penca de parentes.”

Imagino o Cariolatto ou mesmo o Luís Schiratto, que tanto pintaram as paisagens da estrada para Claraval, dentro de uma jardineira. Acho, aliás, que eles nunca a pegaram; se não, não teriam com certeza forças nem equilíbrio psicológico para pintar as maravilhas em suas telas.

Havia as professoras primárias, as mocinhas, talvez alunas. E se uma delas trazia decote mais atrevido, nego botava o olho nela e babava no ombro da gente. E o poeta, ali, firme: “Quando chega na vendinha, o povo para pra aguardente, come quibe com coxinha, entra palitando o dente. Só depois de meia hora é que viaja novamente.”

Ô tristeza! Agora é um cachorro sarnento que entra, com uma cordinha amarrada no pescoço. É o xodó de um velho que vem pitando um cigarrinho de palha.

Os cheiros se misturam: fumo de corda, suor do debaixo do braço, carniça de bezerro morto no pasto, fumaça de óleo diesel... Diziam ser uma viagenzinha que só durava a eternidade!

As conversas se cruzavam. O passageiro, lá da frente, se levanta e grita pro daqui de trás: “Ô Dito, cê foi no velório da Sunta? Hã, hã! Viu a fia dela? Hum, hum. Barrigudinha, né? Ah, pois! Que é du marido? Sabe não? U quê? Num tem marido. Uai, gente, será do spirtosanto? Quase! Cumpadi, num me diga uma coisa dessa! Pois é! O vigário?”

Na volta era a mesma coisa. O gostoso não era sair, chegar, parar. O bom mesmo era ir bem devagar dentro da jardineira, imaginando as malas caindo, já que elas viajavam em cima do troço. Deixo o poeta relatar as minhas últimas lembranças: “Quando chega na subida, o motor já fica quente. Não passa de dez por hora, faz barulho diferente. Enche o povo de fumaça, depois para de repente. Lá depois de meia hora, o povo está impaciente. O vento esfria o radiador e o motor ronca valente. Sai de novo a dez por hora, e o chofer sorri contente.”

O poeta é o Calunga. Ele escreveu estes versos no seu livro Viola gabola.

Confesso que nunca mais li coisa alguma sobre jardineiras.

Saudade.

Everton de Paula
Acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 42 anos

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