Orfandade paterna

Por: Eny Miranda

“... silenciosa canção: / flor do espírito [ ... ]. / Por ela, os homens te conhecerão: / Por ela, os tempos versáteis saberão / que o mundo ficou mais belo, [ ... ] / quando por ele andou teu coração.”

Cecília Meireles,
Epigrama número 1


Filhos não são nossos. Criamos filhos para a vida, dizem. E é a mais pura e dura e bela verdade. Sim, filhos não são nossos, nós os criamos para a vida. Mas quando se interrompe a vida, antes mesmo que ela os leve de nós, então, presenciamos a eternidade. Como dizia Eliot, “o humano espírito / não pode suportar tanta realidade. / O tempo passado e o tempo futuro / o que podia ter sido e o que foi / tendem para um só fim, que é sempre presente”. E “o tempo, se eternamente presente, é irredimível”. Então, presentes, nos movemos nele, com eles, eternos. Em nós, suas vozes, som do sereno nas pétalas, marulho da luz entre folhas, canção-flor do espírito; e seus sorrisos, seda silenciosa, música inaudível, por toda a vida ecoarão e escoarão, preenchendo nossos lagos de alma, entre longes, lumes e lágrimas.

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