Apenas um confete

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Pensava nele, enquanto separava a roupa e jogava na lavadora. Ao pegar a anacrônica cueca um sorriso cúmplice aflorou. Virou-a pelo avesso, como sempre fazia, e já se preparava para arremessá-la, quando um discreto brilho na lúdica abertura chamou-lhe a atenção. Era um confete, mínimo, metálico, moderno, único e devastador. O futebolzinho da terça à tarde com os amigos tinha sido uma farsa, concluiu. Matinê com alguma vagabunda na certa. O safado só não eliminou todos os vestígios do delito porque caprichosamente o confete denunciador se instalara bem na dobra da abertura, quase impossível de se ver, ruminou. E como teria ido parar ali, por que mão, em que circunstância? - gritava intimamente com exacerbada indignação - enquanto idéias homicidas brotavam com fartura. Levou a peça ao nariz, sentiu-a plenamente e começou a ter certeza de que algum perfume indefinido se misturava ao odor do suor.

Irada, libertou a imaginação. Somente porque proporcionava uma vida de conforto, se achava no direito?! Claro que pagava boas escolas para as crianças, bom clube, excelentes férias, almoços familiares em bons restaurantes, feiras sem limite de gastos, prestação dos carros, inclusive o dela, em dia, da bela casa idem, e tantas outras regalias, não admitindo que ela contribuísse com o parco salário, sequer para remunerar a faxineira. Só não bancava a lavagem de roupa, porque ela mesma não concordava, achando, literalmente, que roupa suja se lava em casa. Bom, mas isso tudo lhe dá o direito de sair por aí numa matinê, com alguma vagabunda?

Ao ouvir a voz do culpado sumário, chegando de sua caminhada cinzenta, volta à realidade plena, engole a indignação, joga a evidência do crime dentro da máquina, esboça um sorriso e conclui: a vida continua, um confete é muito pouco diante de tanta “felicidade”.

Mirto Felipim
Funcionário público, poeta escritor e observador

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