O fino da mocotripa

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Continuando com a apresentação de palavras e expressões em desuso, iniciada na última semana, lembro o fino da mocotripa. Era o mesmo que bacana de hoje, legal, joia, excelente, “muito bem”, massa, dez. Até onde me lembro, foi muito usada na década de 1960 e se encaixava em toda manifestação de admiração por alguma coisa. Em Franca, especificamente, tínhamos algumas situações que mereciam esta expressão: era o fino da mocotripa ir ao Clube dos Bagres, pegar uma sessão no cine Odeon, dançar de rosto colado nas brincadeiras dançantes da AEC, usar lança-perfume no Carnaval (quando ainda não tinha sido proibido pelo Jânio Quadros), ter uma bicicleta com farol e marcha, ganhar banco imobiliário no Natal, receber presente de padrinho, flertar na missa das 8 no domingo, o quibe da Quibelândia, trocar gibis na porta de cinemas antes das matinês. Por aí o leitor entende e concebe ações de crianças e adolescentes. O fino da mocotripa era uma expressão democrática e não era empregada apenas por esta ou aquela classe social, nesta ou naquela situação. Era de uso geral, como chupar manga madura na árvore.

Já maricas era o mesmo que mariconço, mariquinhas, paneleiro, pederasta, homossexual, invertido, gilete. O seu antônimo era dito na lata: macho! Tínhamos uma brincadeira, na hora do recreio escolar, que consistia em desenhar um enorme garrafão no chão. Todos ficavam de fora do desenho. Quando alguém ousava atravessá-lo e não conseguia, era pego pelo “xerife” que vigiava os movimentos de dentro do desenho, todos caíam sobre o moleque dando-lhe doídas palmadas e mesmo socos nas costas. E a brincadeira tinha o nome óbvio de “garrafão” e dela só participavam os meninos “machos”. Não era brincadeira para maricas, ou mariquinha. Assim como o futebol em campinho de terra, unha-na-mula, cebola e outras que exigiam coragem e força física. Enfim, mariquinha era o menino com trejeitos efeminados, e isto se dizia assim, sem qualquer receio de ser censurado. Cada um tinha lá sua opção de ser e era responsável por isto. Tenho comigo que os mariquinhas de antes eram muito mais machos que os “mariquinhas” de hoje, que correm logo para a proteção dos tais direitos humanos, alegando discriminação ou preconceito.

Tábua era uma coisa triste de doer. Você ia à brincadeira dançante na AEC, por exemplo, aos domingos à noite, após a sessão de cinema. A orquestra lá tocando, e você procurando pelo salão uma mocinha com quem dançar. Pronto, escolhido o alvo. Você se empertigava todo, atravessava o salão, chegava perto da moça e lhe sussurrava todo elegante: “Quer dançar comigo?” E a moça, quando não queria, simplesmente dizia: “Não!” ou ainda “Eu já estou comprometida!” Sua cara caía ao chão e você voltava ao lugar sem olhar para os lados, mas sabendo que muita gente, principalmente as mães das mocinhas, havia presenciado o ato. Pior ainda, os seus colegas de escola! “Aí, hem bobão, recebeu uma tábua daquelas! Kkkkkkk!” A tábua não era só a vergonha do momento, mas a vergonha da semana... Uma semana inteira aguentando a gozação! Se eu já levei tábuas na minha vida? Oh, e quantas! Mas em compensação, já dancei o bastante para descontar... E de rosto colado, com direito a ficar com o perfume do par feminino nas mãos! Belos e inesquecíveis tempos!

Caveira era quando alguém falava mal de você às escondidas, ou quando alguém o descrevia como mau-caráter para a menina com quem estivesse flertando. Já é a segunda vez que emprego nesta coluna o verbo flertar. Acho que já nem existe mais. Está aí mais uma aprendizagem: flertar, na nossa época, era alguma coisa próxima de “ficar” hoje. Só que nós não ficávamos para abraçar, beijar, transar. Flertar era olhar, mandar recados, talvez um pegar nas mãos durante a sessão de cinema. Antes, temíamos que alguém fizesse nossa caveira com o flerte; hoje torcemos para que não façam nossa caveira com o nosso chefe!

E mais algumas palavras: meia-tigela (alguma coisa ou alguma pessoa de muito pouco valor); toró (tempestade); zoró (bobo ou bêbado)...

E assim seguíamos nossos dias de adolescente, sem saber que chegaria um tempo em que também não iríamos entender a gíria dos jovens de hoje, nem mesmo a linguagem da conversação pelo computador.

Everton de Paula
Acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 42 anos

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