Insólito

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Fazia um mês que ela aposentara. Musicista respeitada pelos colegas de conservatório e alunos, ouvido absoluto, concertista. Casada havia mais de trinta anos, filhos adultos e independentes, acreditava estar iniciando nova fase em sua existência. Nunca tivera problema de insônia, e há muito se acostumara com os não poucos discretos roncos do marido. Até que tudo começou. Na madrugada de uma segunda-feira, ela acordou subitamente no meio da noite e percebeu que seu marido estava roncando a “Ala Turca” de Mozart. Ficou estarrecida escutando quieta. Sim, era a Ala Turca. Cada staccato, cada sustenido, estava tudo ali. Certo que com um timbre inusitado, mas que era, era. Não dormiu mais. No dia seguinte levantou meio zumbi, quase não conversou com ninguém e dizia para si mesma que fora tudo imaginação; uma bobagem. Naquela noite demorou a pegar no sono, um sentimento ambíguo a invadia, por um lado queria que se repetissem os acontecimentos da noite anterior para provar a si mesma que não estava louca, por outro só queria dormir em paz e esquecer tudo aquilo. Quando estava naquele estado, um pé na terra de Deus outro na de Morfeu... tãtãtãtã... a Quinta de Beethoven! Nas noites que se seguiram seu marido brindou-a com nada mais nada menos que os três movimentos da Patética de Beethoven, a Polonaise (em lá maior) de Chopin e a Décima Oitava variação de Rachmaninoff. Desesperada e incapaz de se abrir com quem quer que fosse, buscou ajuda psiquiátrica. O profissional, tentando acalmá-la, lembrou-a de sua recente aposentadoria, e que ela poderia estar tentando compensar alguma coisa com não sei o quê! Pelo menos foi isso que ela entendeu. Mas ela batia o pé e dizia que sabia muito bem o que tinha escutado, e saiu dali nervosa se perguntando se aquele psiquiatra estava do lado de Deus ou do diabo. Mas como os concertos (a uma só voz) continuavam noite após noite, ela voltou ao tal psiquiatra que lhe receitou um daqueles sossega-leão. Um comprimido antes de ir para cama e a certeza de oito horas de sono tranqüilas. E assim foi. Os meses passando, e ela quase se esquecendo de toda aquela loucura. Até que certo dia, apresentada por uma amiga comum à vizinha recém - mudada, para seu espanto e incredulidade, ouviu-a perguntar gentilmente se fora da sua casa que ela havia escutado, na madrugada anterior, a Tocata em Fuga, de Bach.

Assim que chegou em casa, foi direto para gaveta de remédios, pegou o vidro do “sossega leão” que o psiquiatra lhe receitara e jogou os comprimidos na lata de lixo. Então, pensou, só havia uma coisa a fazer; levantou bem alto os muros da casa e daquele dia em diante não perdeu um só dos recitais do marido. Hoje não concebe a idéia de dormir sem seus embalos noturnos.

Silvana Bombicino Damian
É empresária e escritora

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