O melhor filme de Elizabeth Taylor

Por: Sônia Machiavelli

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Elizabeth Taylor morreu na quarta-feira, aos 79 anos, e muito foi dito sobre ela na mídia. Destacaram-se vários ângulos desta personalidade que permanecerá como ícone de atriz excepcional e pessoa que viveu integralmente suas paixões. Inseridos na maioria dos textos publicados na quinta, lá estavam todos os filmes.

Chamou-me a atenção algo de que nunca soubera, apesar de sempre ter lido quase tudo o que se publicava sobre ela. Elizabeth Taylor tinha consciência de que Quem tem medo de Virgínia Woolf? lhe permitira o mais importante e arrebatador dos desempenhos de sua carreira, embora os fãs parecessem preferi-la em Gata em teto de zinco quente. Fui então assistir de novo ao primeiro, pois o tenho na minha coleção de clássicos e o considero um dos trinta melhores filmes que já vi.

Elizabeth Taylor está soberba na pele da professora universitária, meia idade e meio obesa, que trava um duelo verbal com seu marido, George, também professor na mesma universidade onde o pai dela é diretor. Desde os primeiros minutos da história, o espectador é informado sobre o papel deste pai que só é evocado, mas cuja influência sobre a vida do casal é desastrosa. Martha, este o nome da professora, dá largada à descida ao inferno nesta noite em que junto a George, vivido por Richard Burton, recebe em sua casa jovem professor recém contratado e sua frágil e simplória mulher: “George, meu pai mandou sermos gentis com eles”, ordena Martha.

Os anfitriões estão bastante encharcados de uísque quando Nick (George Segal) e Honey (Sandy Dennis) chegam, também embriagados. A partir daí, que se prepare o espectador para o que vai ver mas principalmente para o que vai ouvir. Serão mais de 120 minutos preenchidos por diálogos tensos, agressivos, perturbadores, violentos, lancinantes, deprimentes. O menos letal na referência de George ao sogro é: “rato branco de olhinhos vermelhos”. Martha diz aos convidados que o marido é “ o bundão gordo do departamento de história”. O marido afirma que a mulher é “maldita e destrutiva; grossa e vulgar”. E se no primeiro momento o jovem casal se assusta e recua constrangido, bastam mais dois copos, um de uísque outro de brandy, para que se dê a contaminação de sarcasmos. Não demora para que o convidado esteja por sua vez descrevendo seu próprio sogro como “rato de igreja.” O ódio é contagioso.

Mas como o autor dos diálogos é Edward Albee, não há gratuidade nestas falas. Confluem todas para o processo de desnudamento das personalidades e dos casamentos. Os críticos já apontaram em diversas oportunidades o movimento de retirada de roupas como metáfora deste relato impactante. O avanço rumo à nudez passa por alguns jogos nos quais interagem George, Martha, Nick e Honey. Estes jogos poderiam ter títulos, como sugere o próprio George: “humilhar o anfitrião , comer a anfitriã, retrato de alguém enlouquecendo, pegar as visitas, jovem casal vem do meio-oeste, nosso menino está morto...” Até a exaustão, eles vão continuar jogando e se revelando, se degladiando e se ferindo, num ritmo avassalador que pede muita tolerância ao público. Quando George, a uma observação de Nick sobre o caos vivido naquela sala de visitas, responde que “ a loucura é nosso refúgio quando a realidade pesa demasiado sobre nós”, percebemos o grau de sofrimento que se inflingem todos.

Na cena final, indiciada por imagens escuras, George e Martha, abraçados e angustiados, retomam pela quinta ou sexta vez o verso “Quem tem medo de Virgínia Woolf?”, uma paródia a “Quem tem medo do Lobo Mau?” (Woolf/Wolf: o jogo de pala-vras faz parte do filme e das vidas retratadas). Ela então responde, tristíssima, antes que a câmera se feche sobre sua face: “Eu tenho”.

Saídas? Não há. Porque a vida não tem bula; é difícil estabelecer exatamente a diferença entre verdade e ilusão; o improviso comporta riscos. E ‘a mão que afaga é a mesma que apedreja’, só para associar Augusto dos Anjos aos ódios e amores de Martha & George & Honey & Nick. Amores? Sim, não há só mortes nestas relações, por mais incrível que possa parecer. Nada é simples quando se trata de afetos humanos, parece nos dizer Albee que escreveu a história para o palco e a teve transportada à telona de forma muito competente pelo então estreante Mike Nichols. O filme levou cinco Oscars de uma vez, um deles para Elizabeth Taylor, melhor atriz. Merecidíssimo.

COMEÇO NA BROADWAY

Mike Nichols

Mike Nichols nasceu na Alemanha em 1931. Foi com a família judia para os EUA pouco antes da eclosão da Segunda Guerra. Trabalhou como porteiro, escriturário e recepcionista enquanto cursava a universidade. Fez oficinas de representação com o célebre Lee Strasberg. Começou na Broadway numa trupe de comédia.

Deu sorte com o primeiro filme ao escolher texto do dramaturgo Edward Albee e a dupla Taylor/ Burton, então casados, como protagonistas. A estreia de Quem tem medo de Virgínia Woolf? em 1966, foi pra lá de auspiciosa. Depois viria outro filme que fez sucesso enorme, inclusive no Brasil: A primeira noite de um homem. Mas o terceiro, Catch 22, e o quarto, Iniciação carnal, decepcionaram. De volta à Broadway, recupera prestígio mas não desiste do cinema. Em 1983 convida Meryl Streep para um papel em Reação em cadeia, bem recebido pelo público. Meryl voltaria a trabalhar com ele em A difícil arte de amar e Recordações de Hollywood. Em seguida veio Uma mulher de sucesso, com Melanie Griffith.

Alternando grandes êxitos com alguns fracassos chega ao fim do século XX dirigindo o remake de A gaiola das loucas, com Robin Williams, Jean Poiret e Gene Hackman. Começa o século XXI com Anjos na América, adaptação televisiva de uma peça de Tony Kushner, com Meryl Streep de novo no elenco, mais Al Pacino e Emma Tompson. Este trabalho lhe conferiu onze Emmys.

Seu último filme, que estreou por aqui há algum tempo, é Closer, com Jude Law, Julia Roberts, Natalie Portman e Clive Owen na pele de dois casais que levam uma vida tumultuada.

Serviço

Título: Quem tem medo de Virginia Woolf?
Diretor: Mike Nichols
Ano: 1966
Duração: 129 min
Gênero: Drama
Onde alugar: Nas locadoras

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