Pôr do sol

Por: Lydia Rodrigues Souza

Mais uma manhã nascia pela janela do quarto. Fechou os olhos tentando adormecer novamente e transformar o dia em noite escura, mas a enfermeira já batia na porta. Pensou em não responder, porém um ‘entre’ saiu-lhe automaticamente pela boca sem expressão.

Na mesa, tomando café da manhã molhava um pedaço de pão seco no leite. Pegou o último pedaço e deixou-o afundar, tentou comparar seu fim próximo ao pão que descia ao fundo do copo, mas depois concluiu que essa seria uma metáfora pobre demais para sua morte.

Agora na frente da TV, em sua cadeira de rodas,pensava que as pessoas com quem convivia eram tão indiferentes quanto os artistas do programa. Todos dentro de um aquário enquanto ele ficava de fora... ou seria ele que havia se refugiado de todos?Há tempos não se esforçava para ser simpático, ou melhor, falsamente simpático.Quase não conversava, respondia com resmungos ou com apenas um aceno desanimado.

Nem era tão velho assim, mas seus olhos e o seu coração estavam muito cansados para amar. Agora só desejava paz, não queria piedade nem ajuda de ninguém. Odiava quando lhe perguntavam sobre sua saúde. Será que não podiam ver que estava do mesmo jeito - sem andar, aprisionado naquela cadeira de rodas?Sua condição de cadeirante não era a razão de sua amargura, ele apenas decidira ser assim: seco, distante, mantendo seu coração inalcançável.

A enfermeira interrompe suas divagações e pergunta se ele não queria tomar um ar na varanda. Essa era uma das perguntas que ele mais odiava, negou apenas cerrando os olhos e franzindo as sobrancelhas. Pediu para voltar ao quarto, a enfermeira o levou com um ar de alívio já que poderia deixá-lo sozinho , podendo descansar de seu trabalho e do mau humor do velho.Sozinho pensava sobre como a vida é longa e como é difícil encontrar a porta de saída.Na verdade, não existe uma porta , só um buraco no chão que se abre de repente, em um dia aleatório.

A sua partida seria simples, não havia fortuna acumulada que pudesse gerar disputas por herança entre seus filhos. Não havia também muitos laços a serem desfeitos, seus filhos já eram maduros e independentes, só o visitavam raramente.

No dia seguinte não houve manhã, mas apenas para ele. Todos, bem ou mal, tiveram seu sol a bater-lhes na janela. Naquele dia descobriu que a luz que clareia e desperta, também faz adormecer os que aguardam por um último pôr do sol.
 

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