Os nossos garimpeiros do verbo

Por: Sônia Machiavelli

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Numa de suas peças mais populares, Sonho de uma noite de verão, Shakespeare faz o personagem Teseu dizer que “ o olhar dos poetas (...) capta a essência das coisas desconhecidas, moldando-lhes a forma e dando a um nada construído no ar um nome e um ponto de referência.”

A tentativa de entender o que são os poetas produziu ao longo dos séculos outras frases engenhosas como as de Shelley- “são legisladores não reconhecidos do mundo”; de Chesterton- “existem para mostrar ao homem pequeno o quanto ele é grande”; de Giono- “devem ser professores de esperança”; de Anatole France- “ainda são os únicos que nos ensinam a amar”; de Jean Cocteau- “parecem criaturas extraordinárias que se lembram do futuro”; de Pedro Ivo- “são os timoneiros do mundo”. É muito conhecido o poema de Fernando Pessoa que define o fingimento poético: “O poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente.” Também o de Baudelaire, que nas Flores do Mal compara o poeta ao albatroz porque essa ave, soberana nos ares, quando exilada na Terra arrasta as asas gigantes, impedida até de andar.

Mas a mim, a frase que toca mais fundo é a de Leopold Sengnor, escritor, líder negro, primeiro presidente do Senegal: “ O poeta é como a mulher grávida: precisa de dar à luz.” Resgato essas palavras ao ler os poetas da coletânea Garimpeiros do Verbo, lançada na cidade no sábado, 11 de junho, em noite concorrida no Senac. São eles: Alexandre Bonafim, Alexandre Magno, Cirlene Teixeira, Élvia Eneida Salomoni, Heloísa Helena Franco Meneghetti, Ivani de Lourdes Marchesi, Maria Madalena Carrijo Durval, Paulo César Correa Borges, Placidino Guerrieri Brigagão, Regina Helena Bastianini, Sebastião Fábio Girolamo, Walter Peres Chimello, Zelita Verzola. Os editores prestaram homenagem a Carlos Assumpção republicando seu poema Linhagem. São quatorze poetas que falam de perplexidades, questionam o tempo, espantam-se com descobertas, relatam insights, esbarram no solene, tentam agarrar verdades elusivas, flagram milagres, esgrimam contra o árido, contemplam mistérios, consideram possibilidades, abdicam do entendimento fácil, relatam ricas miudezas, buscam o todo no detalhe, dão notícias do cotidiano além do calendário. É nítida neles a premência do dizer de que nos fala Sengnor: é bem possível imaginá-los prenhes de sentidos a lhes preencher todos os espaços internos possíveis, tornando urgente o parir. Parto a termo, não há que se esperar pelo fórceps, é deixar o rebento ganhar a liberdade de existir também para os outros. Assim o fizeram os poetas desta antologia de título sugestivo, imagético, metafórico, perfeito para designar o processo pelo qual o artista busca nome e referência para o que só ele saberá verbalizar, como diz com extrema pertinência e clareza o personagem de Shakespeare. É rumo às grimpas, palavra-mãe de garimpo, que vai o poeta se elevando com todas as suas forças, grande e inteiro, em busca da expressão mais justa para o que precisa fazer nascer.

E todos os poetas deste garimpo francano, cada um com seu estilo e temática, com sua forma e fundo singulares, estão nos comovendo. Exercitam a função maior da arte que é ativar as emoções. Vivemos num mundo onde o fútil, a aparência, a superfície, o dinheiro, o poder de compra, o consumo, a velocidade, o descuido em relação ao outro, a imagem sem lastro, o movimento para fora se tornam cada vez mais denunciadores de que não é apenas a natureza que corre risco de devastação. Os afetos também passaram a integrar a lista das coisas que podem entrar para o rol de extinção. Os poetas são os nautas que nos conduzem entre vendavais e tsumanis em busca do porto seguro onde podemos ancorar nossa condição humana de seres que amam, sonham, procuram entendimento ou entram em êxtase diante dos muitos mistérios que só se revelam aos que abrem olhos para ver “a essência das coisas desconhecidas” de que nos falou o bardo.

Serviço
Título: Garimpeiros do Verbo - Poesia
Autores: 15 poetas de Franca
Editora: Ribeirão Gráfica
Ano: 2011
Quanto custa: R$ 20,00
Onde comprar: Ribeirão Gráfica

A importância das antologias

Fernando & Marcia
Fernando Oséas e Márcia, editores da Ribeirão Gráfica, desempenham papel importante na publicação de autores francanos. Estão há anos lançando nomes de prosadores e poetas que escrevem na cidade e região. Pelas antologias que todos os anos vêm a público, iniciam-se os escritores até que se organizem para lançar seus próprios livros, geralmente publicados também pela mesma editora.

Talvez seja curioso relembrar que a palavra antologia significou na antiga Grécia” colheita das flores .” Reunião de flores literárias, pois, as atuais antologias também trazem pólen e sementes, são portanto igualmente seminais. Nas palavras de Eny Miranda, que assina a apresentação da obra, “são manifestações de compartilhamento cultural e artístico: partição e repartição interalmas; e reunião, elo, comunhão de sensibilidades. Entre aquele que lê e aquele que escreve, entre aquele que busca e aquele que oferece está, implícita, a riqueza do profundamente diferente aliado ao semelhante; a marca da diversidade no que é igualmente humano: milagre da individualidade compartida”

Buquê de sensibilidades, Garimpeiros do verbo é mais uma conquista na dura seara onde labutam os que vão construindo a literatura francana.  

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