Aipo e aipim

Por: Mauro Ferreira

O Rio de Janeiro continua sendo um destino turístico sem igual. Quando estive lá recentemente, como sempre minha amiga T. reservou um tempo em sua agenda atribulada por uma reforma no apartamento para nos encontrar num lugar icônico para quem admira artes: o Parque Lage, onde funciona uma escola municipal de artes visuais famosa pelo impacto que tem ocasionado nas artes brasileiras. T. estava tomando um café quando chegamos, como bons mineiros, já almoçados no restaurante Aipo&Aipim, uma admirável rede culinária de fast-food especializada em atender os velhinhos de Copacabana, que o Ademir Turismo tinha recomendado noutra longínqua viagem ao Rio.

A escola está instalada num velho casarão do começo do século XX, em meio a luxuriante mata que se esparrama aos pés do morro do Corcovado. Nas antigas cavalariças do lugar, uma exposição do Carlos Vergara, intitulada Liberdade. Calma, que o famoso e premiado artista plástico não é o também famoso líder sindical dos enfermeiros aqui das Três Colinas, conhecido também como Vergal, como o chamava o falecido vereador José Mércuri, atrapalhado com o nome do colega de Câmara.

A história do parque se confunde com a do Rio. Na década 1920, o proprietário da área, Henrique Lage, remodelou o antigo prédio existente, transformando-o num palacete eclético. No pátio interno, construiu uma piscina e, em sua fachada, um pórtico enorme e imponente, cercado de jardins geometrizados. Posteriormente, na decada de 1960, já tombado como patrimônio histórico do Rio, foi desapropriado e convertido em parque público e sede da Escola de Artes Visuais criada pela Prefeitura carioca.

Na casa, viveu a escritora Marina Colassanti, sobrinha de Henrique Lage. Nos anos 80, vários artistas que fizeram o curso na escola tornaram-se referência para a arte brasileira, como Beatriz Milhazes, com sucesso internacional. Beatriz fez parte do grupo de artistas plásticos conhecidos como a Geração 80, um grupo que despontou após uma exposição no Parque Lage, intitulada Como Vai você, Geração 80, resgatando a técnica tradicional do uso do óleo sobre tela.

Depois, T. nos levou até a sede do Instituto Moreira Salles, que funciona na casa onde viveu o banqueiro Walter Moreira Salles, pai do cineasta. Rico sempre mora bem, mas o antigo ministro de JK vivia no paraíso. Em meio a uma floresta tropical, construiu uma casa modernista (projetada por Olavo Redig) que é um espetáculo, com a paisagem dos morros à frente e verde, muito verde. O IMS construiu um novo pavilhão com cinema e sala de exposições, mas na conservada casa original, há lugar para mais exposições, cafeteria e outras atividades artísticas. Uma beleza. Também descobri como a T. mantém a silhueta: passando fome, porque nós almoçamos, ela não, até se render a um lanche restaurador. Agora, falta conhecer o IMS de Poços de Caldas.
 

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