O que vemos nem sempre é o que enxergamos

Por: Sônia Machiavelli

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Eu não sei como outras pessoas enxergam; eu vejo coisas maravilhosas que ninguém vê- Hermeto Paschoal, músico brasileiro multinstrumentista. Vemos só em parte com os olhos, nossa imaginação complementa as imagens.- Wim Wenders, cineasta norte-americano. Vemos as coisas mediadas pela nossa experiência-Paulo César Lopes, professor de literatura brasileira. É um erro olhar com o olhar dos outros- Evgen Bavcar, filósofo esloveno. Eu me alimento com o olhar do outro- Marieta Severo, atriz carioca. O olho vê, a lembrança revê, a transfiguração é o mais importante para o artista- Manoel de Barros, poeta mato-grossense. A visão é alterada por sentimentos fortes, somos criaturas emocionais- Agnès Vardas, cineasta francesa. Para se conhecer de fato as coisas, há que se dar a volta a elas, olhar o todo- José Saramago, escritor português.

As frases acima, ditas para a câmera de João Jardim e Walter Carvalho, são algumas das muitas proferidas por dezenove entrevistados do documentário Janela da alma, produzido há dez anos e mantido com a força e o frescor da obra de arte atemporal. Entre os depoimentos há o de pessoas totalmente cegas, como Paschoal, Bavcar, Arnaldo Godoy; de outras que apresentam problemas de visão, como os míopes Marieta Severo e José Saramago; dos que, situados na faixa de normalidade, usam seus olhos para capturar imagens e transformá-las em obras de arte, como os cineastas Vardas, Winders, Jardim e Carvalho. Os dois últimos escolheram estruturar seu filme de forma fragmentada, o que lhes possibilitou agrupar os relatos dos depoentes em blocos temáticos, chegando a um resultado altamente poético e lírico.

Os fatos e as falas são sempre impressionantes. Bavcar fotografa a atriz Hanna Schigulla, a sobrinha Verônica e uma moça parisiense na frente de um café, tomando por parâmetros a distância física medida pelo tato. A alemã diz em seu depoimento que ele faz “imagens mentais”. Paschoal analisa seu olhar que não se fixa em parte alguma, o que em vez de lhe causar desconforto, cria-lhe condições para que veja o que ninguém vê: assim ele se inspira. Marieta Severo frisa o pavor que é perder suas lentes de contato no palco, em cena, e não conseguir retorno em suas falas, pois sente-se desconectada do olhar dos outros personagens. Cada depoimento é desdobrável de acordo com o grau de sensibilidade do depoente e do espectador. Este pode se ater apenas a uma ou a todas as áreas do conhecimento pesquisadas pelo diretor para mostrar que os modos de ver são muitos e todos únicos, intransferíveis em sua totalidade. Recorrendo à filosofia, à medicina, à biologia, à música, à literatura, ele entrevista artistas, intelectuais, neurologistas, atores, cineastas, gente comum como Jéssica Silveira, que tem vergonha de usar óculos, ou Marjut Rimmian, que traumatizada por ser vesga buscou na cirurgia uma redenção que não veio.

Com lances no chiaroscuro mas caminhando de forma decidida para o claro e opaco no primeiro terço de duração da obra, quando começam a se adensar camadas de pontos de vista dos entrevistados, o filme é desses documentários onde tudo é importante e converge para o mesmo fim. No caso, mostrar que o olhar é uma construção da cultura, e não um fato eminentemente biológico. Por aí o filme avança, desvelando de uma forma delicada e instigante a visão do ficcionista e do poeta; do cientista e do filósofo; do ator e do diretor; do adulto e da criança; do homem e da mulher... Todos nos fazem entender que vemos guiados por nossos conceitos, valores, crenças, opiniões, principalmente por nossas emoções, que podem nos enganar em relação ao que é real. Permanece contudo implícita a pergunta: mas o que é mesmo a realidade para os olhos humanos que são “a janela da alma, o espelho do mundo”, numa precisa alusão à frase de Leonardo da Vinci?

A cena final mostra o nascimento de um bebê em parto normal. Ao vê-lo, lentamente entreabrindo as pálpebras, pensei nas diferenças entre enxergar e ver. Desde as suas origens, enxergar esteve associado ao “entrever, divisar”, enquanto ver já surgiu com o sentido de “considerar com os olhos do espírito”. É principalmente sob essa segunda acepção que se constrói o belo documentário que honra o cinema nacional e cujo DVD me foi presenteado pela psicanalista Ana Márcia V. de Paula Rodrigues a quem agradeço.

OS DIRETORES

Walter Carvalho

João Jardim

Aqui estão dois nomes do maior prestígio quando se fala em cinema brasileiro.

Walter Carvalho exibe com certeza a maior filmografia entre seus pares. São mais de cem títulos, desde O País de São Saruê, de 1971, até A febre do rato, do ano passado. Muitos tiveram grande bilheteria, como Abril despedaçado, Lavoura arcaica, Central do Brasil, Carandiru, Madame Satã, Amarelo Manga, Entreatos. Seus documentários sobre Villa Lobos e Cazuza foram incensados pelo público e pela crítica. A formação em fotografia de Walter Carvalho representa uma vantagem e confere mais valor a tudo o que faz. Sua marca inconfundível tem sido reconhecida e admirada. Nascido em 1947, em João Pessoa, ele é considerado herdeiro do chamado Cinema Novo e tem conseguido fazer trabalhos que mostram as transformações sociais pelas quais passa o Brasil.

João Jardim é mais novo, da geração de 60. Diplomado em jornalismo, resolveu, antes de entrar nas redações, estudar Cinema em Nova York. Depois, no retorno ao Brasil, esteve anos na Globo, no núcleo de Carlos Manga. Seu passo seguinte foi editar filmes para Walter Salles, Eduardo Escorel e Cacá Diegues. Janela da Alma foi seu primeiro longa e com ele conquistou 11 prêmios, nacionais e internacionais. Pro dia nascer feliz, o segundo, versa sobre as situações adversas enfrentadas pelos adolescentes brasileiros na escola, tema atualíssimo.


Serviço
Título: Janela da alma
Direção: João Jardim
Produção: 2001
Duração: 123 minutos
Onde: nas locadoras

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