Dorinha

Por: Mauro Ferreira

Na adolescência, uma das minhas atividades prediletas era estudar a II Guerra Mundial. Colecionava fascículos, lia livros e gibis, assistia filmes, discutia acaloradamente com os colegas batalhas e armas utilizadas naquela guerra. Eu e o Flávio Oliveira Campos (o FOC, ele bem mais que eu), conhecíamos as armas por suas características, calibre, tamanho, quantas bombas carregavam. Uma bobagem sem tamanho, tudo cultura inútil.

Com o tempo, o FOC usava expressões idiomáticas para identificar alguns colegas do IETC por alguma relação que encontrava com as armas que a gente conhecia. Uns caras fortes como o Moge ou o Nehemy, que faziam ginástica de solo, eram fortes como um tanque Panzer. Aquele Toninho Vissoto subindo para uma bandeja no basquete era mais ágil que um caça Spitfire da Royal Air Force.

Ao ver algumas fotos da II Guerra, tomamos conhecimento de armas incríveis: os bombardeiros americanos B-52, o primeiro caça a jato, o Messerchsmitt 262, os foguetes móveis russos Katiuscha, os aviões Stukas e Zeros, tanques Cromwell e Tigers, submarinos, as bombas voadoras alemãs V-1 e V-2, tudo que servia para destruir e matar. Havia até mesmo um incrível canhão fabricado pela Krupp, com um calibre gigantesco, foi utilizado pelos alemães para bombardear os ingleses sobre o canal da Mancha; ele ficava sobre um trem que permitia atirar e se esconder dos aviões aliados.

Até o dia que a Dorinha entrou em nossa classe. No velho IETC, nunca soube como eram montadas as classes da mesma série, havia ordem alfabética, mas também outros arranjos, sei lá quais.

Nossa “ídala” Mary Quant tinha acabado de criar, na swinging London dos anos 60, a minissaia, a invenção mais sensacional do século XX. Perto dela, esse negócio de TV, raio X, computador, internet, carro a álcool, antibióticos, tudo isso tem pouca importância. Então, as meninas começaram a usar, o colégio permitia como uniforme a minissaia azul plissada, maravilha da molecada cheia de testosterona.

No primeiro dia que a Dorinha apareceu em nossa sala com as pernocas grossas de fora, o FOC não coube em si de contentamento e não acreditou no que viu. No intervalo das aulas, me disse que tinha acabado de batizar as pernas da menina como Krupp, que a gente tinha visto no livro. Era Dora, mas não porque fosse ela parecida com um canhão, jamais cometeríamos tal grosseria, longe disso. Era apenas por causa da grossura das pernas da Dorinha (embora, à época, em minha modesta e insuspeita opinião, nenhuma superasse as da Regina Iara).

Nunca mais a vi depois que saí do IETC. Até que, um domingo desses, havia uma jovem senhora tomando chope na praça de alimentação do shopping muito parecida com ela. Será que era a Dorinha? Preciso avisar urgentemente o FOC.

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