Maçonaria e Tomás de Aquino

Por: Everton de Paula

Uma pesquisa curiosa!

O mais antigo documento maçônico conhecido é italiano, da Emília Romana, região situada no norte da Itália, hoje com 4 milhões de habitantes, 22 mil km2, cuja capital é Bolonha. Este documento (um estatuto registrado em ata) é datado do ano de 1248 d.C. Sugere ser a verdadeira certidão de nascimento da maçonaria operativa. Foi redigido em latim.

Há exatos 763 anos, a Maçonaria, por estatuto, tinha as seguintes características:

• a sociedade maçônica era católica;
• as reuniões eram realizadas na igreja de São Pedro, atualmente a catedral de Bolonha, hoje dedicada a São Petrônio;
• quando não realizadas na igreja de São Pedro, as reuniões se davam na casa do bispo da antiga diocese;
• a instituição era conhecida como Societatis Magistrorum (Sociedade dos Mestres);
• as reuniões eram registras em Acta;
• as missas na igreja de São Pedro contavam obrigatoriamente com a presença de todos os membros (maçons) da sociedade, que colaboravam com a igreja por meio de doação de moedas (dinheiro) e velas;
• a sociedade professava a crença em um Deus único, criador nunca criado, de infinita misericórdia para com os homens e as coisas criadas;
• o seu estatuto apresentava 61 artigos (podendo hoje ser consultado nos seguintes endereços eletrônicos: http://www.polibusca.com.br/texto. aspx?idTxt=162 ou http://www.lojamaconica.com.br/Artigos.info.asp?tp =191&sg=0&form— search=&pg=1 &id=297).

Este documento foi redigido por um notário, por ordem do magistrado (prefeito) da cidade de Bolonha, Bonifacii De Carlo, no dia 8 de agosto de 1248. Atualmente faz parte do acervo do Arquivo de Estado da Cidade de Bolonha.

Sucede um fato: Tomás de Aquino (1225-1274), filósofo e teólogo medieval, chamado Doctor Angelicus ou Princeps Scholasticorum (Primeiro dos Escolásticos), proclamado doutor da Igreja em 1567, foi contemporâneo do início da sociedade maçônica, embora não tenha pertencido à Societatis Magistrorum.

Com Tomás de Aquino, busca-se relacionar ciência e fé, filosofia e teologia. Fundada na revelação, a teologia para ele era a ciência suprema, da qual a filosofia é serva ou auxiliar. Caberia à filosofia, procedendo de acordo com a razão, demonstrar a existência e a natureza de Deus.

Tomás de Aquino formula cinco argumentos para provar a existência de Deus:

1. se tudo se move, o que é incontestável, o que se move é movido por outro motor; se este motor, por sua vez, é movido por outro motor, precisará de um motor que o mova, e assim indefinidamente, o que é impossível, se não houver um primeiro motor imóvel, que move sem ser movido, que é Deus.
2. Há uma série de causas e efeitos ao mesmo tempo; não é possível remontar indefinidamente na série das causas; logo, há uma causa primeira, não causada, que é Deus.
3. Todos os seres que conhecemos são finitos e contingentes. Na Escolástica (pensamento cristão da Idade Média N.A.) a palavra “contingente” refere-se ao fenômeno que é fortuito e casual, quando considerado isoladamente, mas necessário e inevitável ao ser relacionado às causas que lhe deram origem. Os seres são finitos e contingentes porque não têm em si próprios a razão da sua existência: simplesmente são e deixam de ser. Ora, se são todos contingentes e finitos, em determinado tempo deixariam todos de ser e nada existiria, o que é absurdo. Logo, os seres contingentes, para o seu continuum (sustentabilidade, continuidade N.A.), implicam o ser causador da continuidade, o ser necessário, não casual, que é Deus.
4. Os seres finitos realizam determinados graus de virtude, mas nenhum atinge a perfeição absoluta. Logo, há um ser sumamente perfeito, que causa todas as faces da perfeição, que é Deus.
5. A ordem do mundo implica que os seres tendam todos para um fim, não em virtude de um acaso, mas da inteligência que os dirige. Logo, há um ser inteligente que ordena a natureza e a encaminha para seu fim; esse ser inteligente é Deus.

Maçonaria e Igreja comungavam a mesma fé na primeira metade do século XIII. As pretensas provas tomistas da existência de Deus coincidiam com as professadas pela Societatis Magistrorum, conforme seu estatuto. Em caso contrário, não haveria a concórdia entre ambas as instituições, o que se atesta na Carta de Bolonha, exposta à visitação sob licença especial das autoridades italianas. Resta saber se as “provas” de Tomás de Aquino são atualmente aceitas pela Igreja e pela Maçonaria. Se positiva a resposta, não haveria aí uma porta aberta à reflexão?

A separação entre Maçonaria e Igreja Católica ocorreria mais tarde, por razões que merecem outro estudo e relato.

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