Roubo

Por: Marco Antonio Soares

Eram onze horas quando, de arma em punho, ele me rendeu ao portão.

Era um rapaz franzino, desses cuja fome devorou toda a carne do corpo e roeu alguns sentimentos da alma.

O negro revólver parecia trêmulo na mão delicada, nos dedos longos como que feitos para as cordas de um violão, para a tecla de um piano, para o corpo de uma caneta. Mas provavelmente a vida lhe tenha ditado um ritmo muito rápido, talvez lhe tenha surrupiado a delicadeza do toque ou quem sabe a escola lhe tenha semeado um amontoado de palavras estéreis.

A única coisa que trago de certeza é que a voz adolescente soube ditar ordens: que todos deitassem no chão, pois quem lhe pusesse os olhos novamente seria morto.

Remexeu gavetas, procurando jóias que não havia, acalmou a frustração, dando com o cabo da arma em nossas cabeças, fugiu no mundo.

Roubou-nos, por alguns dias, a paz, a alegria, a crença no próximo.

Em nossos corpos ficaram algumas manchas arroxeadas, em nossos espíritos ficaram as marcas da humilhação, da perplexidade, do medo.

Deixou-nos, porém, o bem maior, a vida. Um pouco machucada - diga-se de passagem - mas sem nenhum risco de morte.

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