Cada geração tem sua trilha sonora

Por: Sônia Machiavelli

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Olho minha neta Júlia conectada ao mundo que me parece novo, pois redesenhado virtualmente. Ouço-a falar de bandas que desconheço, mas procuro acompanhar seus comentários críticos a respeito das letras dos roqueiros preferidos. Admiro seu entusiasmo pela música na qual parece ligada boa parte do tempo. Tem 12 anos, é curiosa, ávida por viagens , filmes, espetáculos. Internauta voraz, faz parte das redes sociais. Quando viajamos, e tenho oportunidade de estar mais próxima, constato que os assuntos que a mobilizam, e a seus amigos, têm muito a ver com as músicas que elegem como preferidas.

Confesso que não consigo entrar em profundidade no seu universo musical, mas sou capaz de entender perfeitamente como ele é importante na esfera do lúdico, da aventura, do sonho, espaços de magia por onde os adolescentes viajam em tempo quase integral. Tenho consciência do alcance disso porque minha geração também foi assim e imagino que as anteriores hão de ter sido e as futuras o serão. Que tipo de música vai pautar a vida de meu neto João? Não sei, mas fico curiosa.

Converso com amigas de minha idade e todas se lembram das músicas que embalaram nossos sonhos, para usar uma expressão do Valdes Rodrigues. Nos seus programas da Rádio Difusora, ele abre espaço para resgatar canções que fizeram sorrir e chorar. O Elvis Presley de Bridge over troubled water ; o Sinatra de My Way; a Mireille Mathieu de La Mer; o Ritchie Valens de La Bamba; e a Nara Leão de A Banda; a Maysa de O barquinho; o Chico Buarque de Apesar de você; o Gilberto Gil de Domingo no Parque (também o Ronnie Von de A praça!). E o Laércio da Franca de Moonlight Serenade: I stand / at your gate/ and the song/ that I sing/ is of moonlight... Aí, entrando Laércio, irrompe na memória toda uma sequência de canções que a orquestra tocava nos bailes da AEC e ficaram guardadas para sempre nos que as acolheram em mistura deliciosa de emoções juvenis.

Citei brasileiros, americanos, franceses, espanhóis . Faltaram os italianos. Estes, com certeza, atiçaram intensamente nosso lado romântico, reforçando latinidades. Que jovem daquele período terá se esquecido de Sergio Endrigo cantando Io che amo solo te; de Gigliola Cinquetti descrevendo-se em Quando m’innamoro; de Kalyna Raniero exibindo em filigranas de voz a Gelsomina que Nino Rota havia composto para o filme de Fellini, La Strada? Quantas meninas receberam o nome de Roberta por causa da canção homônima que tornou Peppino di Capri famoso da noite para ao dia? E o que dizer do efeito avassalador de Canzone Per Te, dos dois Sergios, Endrigo e Bardoffi, que consagrou Roberto Carlos em San Remo? Como não se recordar de Al di là sem a associar ao filme O candelabro italiano, que formava filas enormes na frente dos cinemas? Nessa época, Elvis Presley, já célebre, gravava Surrender, versão de Torna a Sorrento, e resgatava toda a beleza da canção napolitana assinada por outra dupla de peso, os De Curtis- Ernesto e Giambattista. Foi tão bem sucedido que voltou a fazer o mesmo com a centenária O sole mio, rebatizando-a em inglês It’s now or never, mexendo na letra à qual seu vozeirão conferiu peculiaridade e tornou uma das músicas mais ouvidas no mundo.

Todos esses títulos, mais Per amore, Picolíssima serenata, Caruso e Parlame d’amore Mariù estão no CD que encontrei dia desses sobre minha mesa, quando cheguei para trabalhar. Gentileza de Hermes Falleiros (voz) e Fausto Puglia (acordeon), que junto a Rafael Andrade (piano) e Washington V. (arranjos e teclados) viabilizaram a seleção.

Onde há música, não pode haver coisa má, disse Cervantes pela boca de Dom Quixote. A música fala à alma dos que se deixam afetar por ela, que atua como elemento catalisador de lembranças que não envelhecem.

Então, muito obrigada ao quarteto pelo presente que nunca vai virar passado.


VIAGEM MUSICAL

Italianíssima

“Na minha opinião existem duas categorias especiais de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar”. Esta é uma frase do romance Solo de Clarineta, do gaúcho Érico Veríssimo, que deveria saber bem do que falava, pois sempre viajou muito. Ao ler o título que Hermes Falleiros e seus parceiros deram ao CD comentado ao lado, pensei neste fugir/buscar.

Acho que quando a viagem se faz através da música, podem-se reunir frequentemente os dois verbos, pois muitas canções nos fazem fugir do presente exatamente para buscar, no passado, as emoções que nos marcaram quando as ouvimos na primeira vez.

É muito comum dizer ou pensar: “Esta música me lembra Fulano...”, “Tal canção me recorda o seguinte fato..”, Estava no lugar X quando ouvi estes acordes pela primeira vez...”. Músicas indiciam o contexto em que as ouvimos. Parece que há mesmo uma região de nosso cérebro mais sensível a certas emoções e à qual a música tem poder de acesso quase imediato.

O CD Italianíssima, que está circulando na cidade desde abril, soma-se a outros com os quais o quarteto de amigos, ligados pelo amor à música, resgatou momentos de beleza, harmonia e transcendência, em processo de evocação que os clássicos admitem por excelência. Se a maior parte de nossa memória está fora de nós,” numa viração de chuva , num cheiro de quarto fechado ou no brilho de uma primeira labareda”, como disse Proust, é certo que está também na melodia e na letra de muitas canções que vão compondo, ao longo da vida, a trilha sonora singular e intransferível de cada pessoa.


Serviço:
Título: Viagem Musical Italianíssima
Artistas: Fausto Puglia, acordeon; Hermes Falleiros, voz; Rafael Andrade, voz e piano; Washinton R., arranjos e teclados
Canções: Per amore, Roberta, Io che amo solo te, Quando m’innamoro, Gelsomina, Canzone per te, Picolíssima serenata, Caruso, Torna a Sorrento, Parlame d’amore Mariù, Al di là.
Onde comprar: Casa São José
Quanto custa: R$ 15

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