Diferente de quem?

Por: Jane Mahalem do Amaral

A dificuldade que sentimos para conviver com as diferenças que nos cercam pode nos levar a várias reflexões. Em primeiro lugar é preciso descobrir o que chamamos de diferente. Creio que é aquilo que nós não aceitamos no outro. Por exemplo, uma pessoa que fala muito, ou fala muito alto, alguém que pensa de outra forma, ou vê a questão sob outra ótica, geralmente nos incomoda. Então eu digo: Não dá para conviver. Ele é muito diferente de mim. O mesmo acontece com os outros em relação a nós. A quantas pessoas nós incomodamos? Será que já fizemos essa conta? Ou será que gostamos de acreditar que o nosso jeito de ser é sempre o melhor? “Arre, estou farto de semideus! Onde é que há gente no mundo?”, desabafa Fernando Pessoa no seu Poema em Linha Reta.

Dizem os estudiosos da psique humana que projetamos nas outras pessoas aquilo que somos incapazes de ver em nós. Dizem também que a projeção é um mecanismo de defesa involuntário, pois em vez de reconhecer aquilo que em nós nos desagrada, projetamos no outro e assim podemos falar livremente do desconforto que sentimos em relação a algumas atitudes ou pensamentos. Enfim, o que quer critiquemos ou condenemos em outra pessoa seria, em última análise, um aspecto que renegamos ou rejeitamos em nós. Eu vejo no outro o que não quero ver em mim e assim me coloco acima e a salvo de qualquer delito.

Como compreender isso de forma profunda e verdadeira? Só de pensar que aquilo que eu não gosto no outro, nada mais é do que uma sombra que habita em mim e da qual eu não quero olhar, já me incomoda, desestabiliza minhas emoções e desiquilibra meu espírito. Como posso lidar com isso se toda a projeção acontece de forma inconsciente?

Sinto que é preciso descer um pouco além dessas interpretações psicológicas. É preciso mergulhar na alma. Ampliando nossa visão, ou concebendo uma visão mais justa, chegaremos ao ponto de que somos feitos da mesma matéria e que viemos todos da mesma Fonte. Se assim é, em que podemos ser diferentes uns dos outros a não ser na mera capacidade de olhar e julgar? Nossa aprendizagem, no caso, seria ajustar o olhar em nossa humanidade e ver que por sermos iguais, as mesmas atitudes e pensamentos que ora aparecem em um, logo depois aparecem no outro, pois tudo faz parte do Todo que habita em cada ser. Difícil mesmo é refinar nosso olhar para enxergar dentro de nós mesmos...

Creio que o Cristo nos deu um grande susto quando nos disse para amar os nossos inimigos. Como já é complicado amar os amigos e semelhantes, o que dizer de amar o inimigo?... Mas penso que aí é que precisamos chegar: o inimigo não é só aquele que não gosta de nós ou que nos deseja o mal. O inimigo é aquele que é diferente, que não pensa como nós e que geralmente está instalado na nossa convivência, seja na família, nas amizades ou nas relações de trabalho. Acolher o outro como “outro”, mas não como diferente é que nos dará a abertura para reconhecermos nossa verdadeira identidade, abrir espaço para a benevolência e compreender o verdadeiro sentido da palavra amor, desnudada das medíocres idealizações.

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