Cinema em pauta: Planeta dos Macacos, a origem é um ‘prequel’

Por: Sônia Machiavelli

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Lançado no final de agosto nos cinemas de todo o país, Planeta dos Macacos, a origem, confundiu muita gente por causa do título. Homônimo do blockbuster que já tem 41 anos, com Charlton Heston no papel principal, não é um remake como o fracasso dirigido em 2001 por Tim Burton, muito menos a quinta sequência da narrativa que impactou os cinéfilos dos quatro quadrantes do mundo desde 1968. O filme que continua em cartaz, e pode ser visto em Franca, é relato do que ocorreu antes que se contasse a primeira história da série. Ele é um ‘prequel’, ou seja, narrativa que revela uma gênese. Em português começam a usar o neologismo prequência, em paralelo com sequência.

Nas últimas décadas, o cinema produziu grandes ‘prequels’. Star Treck, de 2009, desvela a história dos principais personagens da série Jornada nas Estrelas, iniciada em 1979 e com dez filmes no currículo. Batman Begins, de 2005, mostra o surgimento do super-herói das HQs que apareceu pela primeira vez nas telas em 1989 e se aventurou em mais quatro histórias. Wolverine, Hannibal, O Exorcista são protagonistas apresentados em suas origens, depois de terem mostrado suas façanhas e crimes. O ‘prequel’ é um exercício de criação que permite ao cineasta anular a noção de tempo enquanto cronologia. Na literatura e no cinema pode-se imaginar um nascimento para alguém que já morreu ou construir acontecimentos que expliquem o início de odissseias já contadas.

Para entender isso, o espectador de O Planeta dos macacos, a origem, não pode levantar-se da poltrona antes que cheguem ao fim os créditos, como tem acontecido. Pois há uma cena rápida, imediatamente depois, importante para o entendimento do filme como uma história da qual o Planeta dos Macacos, de 1968, é uma sequência, mesmo estando no passado. Outro indício significativo, e quase despercebido pelo público que acha que o filme já está acabando e se prepara para deixar a sala, é a notícia, mostrada por uma tela de televisão, que fala de um grupo de astronautas perdidos no espaço. Poderia ser lembrado ainda o nome dado à primata-cobaia, Bright Eyes, o mesmo que Zira/ Hunter dá a Taylor/Heston no primeiro Planeta dos Macacos. Ou ainda o nome do personagem de Tom Feldon, Dodge Landon , que é dupla referência a Dodge (Jeff Burton) e Landon (Robert Gunner), amigos do mesmo Taylor.

São detalhes sutis que credenciam um filme belo, forte, com muitas mensagens diretas e outras subliminares. Saímos da sala pensando na arrogância da espécie humana, na crueldade de quem detém poder sem exercitar compaixão, na necessidade de obedecer às leis da natureza, que pode reagir com fúria à ação predatória ou escravizadora do homem. Também voltamos para casa refletindo sobre a pertinência da humildade diante de fatos que não sabemos explicar, a ambição da indústria farmacêutica que algumas vezes só corre atrás de lucros, os limites a serem respeitados no âmbito de todas as coisas.

Com elenco pequeno e de grande competência, o filme mostra o jovem cientista Will Rodman (James Franco) pesquisando substância para tratar Alzheimer, doença que acomete seu pai. Só uma das cobaias sobrevive à pesquisa, a citada Bright Eyes, que é sacrificada pelo comportamento agressivo. Ela deixa um recém-nascido, que o cientista leva para casa e cria. Dá-lhe o nome de César, em analogia com um dos imperadores romanos. Mas porque a droga injetada na mãe acabou passando para o filho, César desenvolve inteligência superior e capacidades cognitivas insuspeitadas em um primata: empatia com outros seres, habilidades com ferramentas, alguma expressão verbal que começa ( ou termina?) com uma negativa - a palavra “não”. Durante três anos a convivência entre homem e animal lembra a de pai e filho. Até que um acidente leva César para longe do paraíso. O filme é repleto de mitologias, como se pode perceber. Retirado de seu lar, César vai trilhar trajetória de sofrimento.

O roteiro inteligente e ágil constroi em chave alegórica a evolução do primata ao homem. O gosto pelos detalhes metafóricos caracteriza a direção de Rupert Wyatt, que concebe cenas de beleza espetacular, como a das folhas caindo das árvores sobre o asfalto da rua traquila e muito silenciosa, à passagem dos macacos pelas copas.

Tarzan e Chita às avessas, pois se na fábula de Edgar Rice Burroughs o homem é criado pelo macaco, na de Jaffa e Silver o macaco é criado pelo homem, Will e Cesar são a alma da história. A excelente parceria Franco/Serkis garante inesquecíveis momentos para a saga que não tem final fechado e nos convida a pensar de onde viemos e para onde possivelmente estamos indo.


JOVEM DIRETOR

Rupert Wyatt

De origem britânica, Rupert Wyatt tem apenas 39 anos, poucos para quem chega com tudo assinando um filme que arranca elogios pela história, construção, concepção, principalmente pela ousadia. Depois de cinco sequências de Planeta dos Macacos, ele encarou a proposta dos roteiristas Jaffa e Silver, que ambicionavam levar às telas uma prequência, neologismo que começa a ser usado, para explicar o filme de 1968. Antes, Wyatt havia dirigido apenas The Escapist, ainda sem tradução em português, que trata da fuga de um prisioneiro, e trabalhado como auxiliar de direção em Animal Farm, migração para as telas do romance A revolução dos bichos, de George Orvell

Às vésperas do lançamento de O Planeta dos Macacos, a origem, o diretor falou dos problemas mais comuns de sua profissão. Indagado sobre a dificuldade de estruturar uma gênese para um clássico, disse que “ é sempre um desafio fazer qualquer filme, e é um desafio ainda maior fazer um filme com esta ambição.”

Respondendo ao repórter que lhe perguntava quantos macacos tinha o filme, fez questão de destacar dois: “Temos um gorila chamado Buck e um orangotango chamado Maurice, que é de circo (...) Do jeito que Andy e eu conversamos com outros atores, pensamos: se daqui a 3 mil anos houver uma civilização onde os alfas do mundo são os macacos? Eles vão olhar para trás, para esses personagens, e pensarão neles como heróis. Foi desse jeito que a gente quis contar a história. É muito parecido com a Bíblia.”


Serviço
Título: O Planeta dos Macacos- a Origem
Gênero: Ficção Científica
Diretor: Rupert Wyatt
Onde: Sala 1, Franca Shopping

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