Nossa Senhora de Lourdes

Por: Luiz Cruz de Oliveira

É cedo ainda pouco mais de oito horas, e o sol de setembro ainda não queima o resto de brisa do mês anterior que se foi há dois ou três dias. Assim, é com pouco esforço que um homem velho contorna o quarteirão, examinando as minudências do prédio que abrigou o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, depois a UNESP, e hoje é ocupado por diversos departamentos do Governo Estadual. O homem parece examinar atentamente a porta do prédio.

- Esta rua chamava Rua das Flores... Rua das Flores... Escutei muita gente falar isso...

As pessoas passam, sobem e descem apressadas, sequer se espantam ao perceberem o velho pensando em voz alta. Ele atravessa a rua, vai até a outra esquina, sobe a Rua Campos Sales, falando sozinho, enquanto sua bengala solfeja notas soltas de um passado que recebeu de terceiros e não foi plenamente arquivado em seu cérebro.

Era um sobrado ali na Rua das Flores... As freiras chegaram na Mogiana, às dez horas da manhã, do dia 31 de outubro de 1888. Elas chegaram um pouquinho antes da Lei Áurea, da libertação dos escravos.

- Quem será que me ensinou isso?

As mulheres pertenciam à congregação das Irmãs de São José. Madre Maria Teodora e Madre Maria Apresentação começaram a dar aula lá no sobrado que virou Colégio Nossa Senhora de Lourdes muitos anos depois.

- De primeiro, a gente conversava essas coisas. Agora ninguém fala nada... e a gente vai esquecendo... Dizem que em 1938 começaram a construção de um prédio e que, em 1954, derrubaram o casarão...

Eram duas escolas: o Champagnat e o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, onde estudava a elite filhos de cafeicultores, criadores de gado em regime de internato e de semi-internato. Estudar era para poucos. Mas o mundo foi dando voltas, e muitos sapateiros foram virando industriais e os comerciantes foram enriquecendo, e então muita gente foi querendo estudar. Então apareceu o IETC Instituto de Educação Torquato Caleiro, o exame de admissão...

- Lembro bem umas coisas, esqueço uma porção de acontecimentos... parece que eu só lembro de pedaços... Vou arranjar algumas informações com a Dona Margarida.

O homem atravessa rua, o portão largo, entra no Museu Histórico José Chiachiri, para diante do sorriso alegre da recepcionista. Ela é solícita.

- A jovem pode me anunciar à diretora?

- Ah, a Margarida está de férias, Senhor Chico. Eu posso ajudar?

- Não, não... Eu só queria trocar umas idéias com ela. Pode deixar que eu volto daqui a um mês.

- Não, não precisa demorar tanto. A Margarida volta semana que vem.

- Agradecido. Muito agradecido.

As palavras são acompanhadas do gesto de descobrir-se quase por inteiro. Em seguida, sai, atravessa a rua, caminha até a esquina, toma a Rua General Carneiro e caminha em direção à antiga Estação da Mogiana. Ao cruzar com as pessoas, leva a mão à aba do chapéu, em silencioso cumprimento ignorado pelos transe untes.

Ignoram também o fato curioso de o homem caminhar, pensando em voz alta.

- O doutor Chiachiri Filho devia escrever a história do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, do Colégio Champagnat, da Escola Pestallozzi... A gente vai esquecendo as coisas... De primeiro, eu lembrava tanta coisa...

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