Chão de esmeraldas

Por: Hélio França

(Ao Capitão)

Todos os anos, em pleno inverno de junho, lá está o solo cru e nivelado, pelado que só vendo, nem uma erva daninha para dar a graça do verde. Alguns dias após podemos observar montões de terra solta avermelhada no local. Terra boa, de cultura, que passa por um processo cansativo de peneiramento para evitar torrões e pedras. Para a etapa seguinte de enchimento dos saquinhos plásticos é necessário possuir uma boa coluna cervical, doses de paciência, e muita disposição física...

Um saquinho, dois, dez, mil, cem mil, duzentos, trezentos, seiscentos mil ! Repletos de terra devidamente preparada com carinho, esmero e dedicação, formando batalhões dispostos no solo em posição vertical, em canteiros requadrados de bambu, perfilados como se fossem, guardadas as devidas proporções, um exército de terracota chinês. E como todo exército tem seu comandante, este também possui o seu. E é ele próprio, o Capitão, que comanda esta batalha com uma só mão, já que perdeu quase toda a outra guerreando pela vida afora. Agora a luta é renhida. É o plantio da esperança, a semente seca enfiada com o dedo, na terra que a recebe para nutri-la e germiná-la. Assim dispostas manualmente uma a uma, logo são seiscentas mil sementes “dormindo” no escuro do solo, à espera de algo inacreditável, magia talvez. Como se cobre a um filho ao dormir, todos os canteiros são cobertos carinhosamente com palha vegetal. Daí em diante o silêncio só será quebrado com o ruído gostoso da chuva artificial provinda da mangueira d’água regando periodicamente, combatendo o sol forte e a estiagem, para saciar a sede de milhares de grãos de café.

Acreditando sempre no milagre da vida, vez por outra, o “Capitão” do exército levanta uma palha aqui, outra acolá, para ver se os soldados estão devidamente alimentados e hidratados. Examina com olho clínico, ansioso, dia após dia, esperando ver se os brotos rompem, vencendo a resistência da terra. Passam-se dezenas de dias, até que surgem, a princípio pálidos, tímidos, para em seguida se abrirem, formando cada qual um par de pequeninas folhas. Todos os canteiros continuam cobertos por aquela palha seca de cor bege acinzentada, cenário este visto durante muitas semanas pelas pessoas acostumadas a passar em frente ao viveiro, a pé ou de carro. De repente, como num passe de mágica, num sol de inverno ainda, com todas as árvores e arbustos ressecados à volta, eis que brota aos olhos da manhã um oásis ! Os canteiros transformam-se num verde brilhante, reluzente, composto de seiscentos mil pezinhos viçosos de café, repletos de vida !

Ao olhar de quem passa e vê este milagre da vida, o sentimento é de beleza. Ao olhar de quem, durante meses, lutou de sol a sol, acreditando no parto da terra, o sentimento é de profunda emoção, de realização, e por que não dizer, de agradecimento à mãe natureza premiando todo aquele exército, transformado agora num chão de esmeraldas, sob o comando do bravo Capitão !

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