Alipão

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Meu amigo Ronan parou de mamar quando ouviu a primeira história de assombração. Ficou indelevelmente marcado por ela e pelas seguintes, e isso explica muito de seu comportamento adulto, repleto de repentes destrambelhados. Deve explicar, também, os seus temores noturnos.

Mas não é somente este amigo que carrega no lombo as conseqüências de uma educação bisonha, eivada de horrores que povoa a infância de fantasmas e devasta o bom senso e o equilíbrio do adulto. Isso aconteceu com a maioria de nós que tivemos o espírito alimentado pelos contadores de história.

À noite, na sala ou na cozinha, sentada no rabo do fogão à lenha ou em tamboretes, sentada no chão da varanda ou do terreirão de café, à luz da lamparina ou da lua cheia, a criançada aprendia.

Bem intencionados, ensinavam um pouco de tudo: histórias da vida de São Cristóvão e de outros santos; fatos da vida de vultos de nossa História; as agruras do Jeca Tatu; as hilariantes aventuras de Pedro Malasartes. Mas, os personagens que mais marcaram a imaginação infantil e que permanecem plantados no inconsciente de muitos adultos pertenciam ao universo das almas penadas, ao mundo das assombrações.

O tempo nos ensinou que até os santos conheceram tropeços; que os heróis tinham pés de barro; que os problemas do Jeca Tatu só acabavam nas propagandas de fortificante; que as peraltices e atitudes de Pedro Malasartes nem sempre são modelos para a vidas atual. E tudo isso modificou nossa própria visão dos heróis da infância.

Nunca desapareceu do espírito das antigas crianças foi o impacto daquelas histórias de assombração.

Ronan tipifica o resultado daquela educação. Ele é a soma de todos os medos.

Ele tem medo crônico de ficar pobre. Teme que seu time não seja campeão. Vive atemorizado, apavorado mesmo, ante a possibilidade de os credores localizarem seu novo endereço. Tem medo, porém, verdadeiramente, é de assombração.

E, além de medroso, o danado revela alto grau de masoquismo. Isso se evidencia no fato de ele, nos fins de semana prolongados, ir lá para a Fazenda Limeira, onde cresceu (pouco), acompanhando os irmãos Valtinho, Ronaldo e Tonho, o sobrinho Ismar e uma penca de parentes.

Talvez vá por medo medo de parecer covarde.

Lá, passa duas ou três noites sem dormir, tremendo, observando as peripécias do Alipão que morreu há mais de vinte anos morador da fazenda, famoso pelas habilidades de carreiro e de benzedor.

Desencarnou. Porém, segundo Ronan, perambula pelas cercanias, faz estrepolias de toda sorte, sempre acompanhado de um b oi preto, de um só chifre.

O medo é maior que quaisquer argumentos. Não adianta explicar ao homem que foi o Ismar que colocou bombinha no cigarro, por isso ela explodiu lá longe, no mato. Não adianta ponderar-lhe que foi o Valtinho que acendeu v ela lá na porteira. É inútil mostrar-lhe que a janela bateu por causa do vento.

Não adianta. Não escuta, não vê todo mundo provocando o seu medo, gargalhando de seus temores.

- Gente, acende vela. O Alipão está lá fora... Eu escutei o berro do boi dele.

- Foi a vaca que berrou lá no cocho, Ronan.

- Acha que eu sou bobo? Boi berra diferente.

Nada adianta. Para ele, tudo é responsabilidade do Alipão. Por isso, quando necessita ir ao banheiro robusta moita a cem metros da casa, exige a companhia do Tonho, o mais corajoso da família.

Um dia desses, penalizado, quis ajudá-lo.

- É tudo brincadeira. Não existe assombração, Ronan. A gente é que fica imaginando coisas.

Ele arregalou o olho, explicou:

- Sei, sei... Tem assombração não. Tem só o infeliz do Alipão... Ele agora veio pra cidade. E, olha, não conta pra ninguém: ele trouxe o boi. Estão acampados lá perto da minha casa, na beira do corguinho... escutei os berros do chifrudo. Aquele bairro vai virar Matinha da Sanfona, lugar assombrado. Já te contei que...

Tem jeito não. Ele teve congestão de histórias.

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