‘Negra’, o DVD de Consuelo de Paula

Por: Vanessa Maranha

149251

Negra, o primeiro DVD da cantora e compositora Consuelo de Paula, sintetiza, em novos elementos, o seu percurso musical. Confirma a fidelidade da artista com as suas raízes e a sua gentil recusa às concessões.

O seu som é exatamente aquele que corre o mundo bebendo de outras fontes sem prejuízo do próprio sotaque. Sua mineira, quase mítica e reverenciada Pratápolis (MG), local que foi celeiro das congadas e dos moçambiques, herança africana por aqui catequizada, comparece onipresente ali e em toda a sua obra.

O título evoca a matriz de origem, mãe primeva, mas pode também ser sensualidade, paixão, simplicidade de gente do campo. A cor que predomina, sinestesicamente, dessa vez, é o vermelho. Partindo da tela pintada pela artista plástica francana Ana Freitas e cedida como cenário do palco, passando pela luz esculpida por Elias Andreato e desaguando nas sonoridades dramáticas retiradas do contrabaixo acústico de Zeca Assumpção; a percussão de Ari Colares; o piano surpreendente de Heloísa Fernandes; o rendilhado do clarinete de Zé Pitoco; a viola de arco nas mãos Fabio Tagliaferri produzindo lamentos fundos. Tudo vermelho, do terroso ao sanguíneo.

Mas é a voz de Consuelo, somada aos detalhes cênicos, líricos e acústicos o grande presente desse trabalho, especialmente para quem acompanha a evolução da sua carreira. Surpreende constatar como o diretor musical e de arranjos Dante Ozzetti, com sua leitura clássica e ao mesmo tempo universal, conseguiu modelar roupagem harmônica e melódica sem interferir na respiração, no modo com que Consuelo desenvolve o seu canto e o reelabora e dá ritmo ao seu dizer, um dizer mais maduro, nas suas que são sempre canções de bem dizer.

O que se tem é um universo de delicadezas em letras-poemas como récitas cantadas e músicos livres para criar naquilo que por vezes chega a parecer uma jam session em improvisos muito bem sincopados: um prazer e tanto, sofisticado e singelíssimo ao mesmo tempo.

Gravado ao vivo no Teatro Polytheama, em Jundiaí (SP), esse DVD apresenta quinze faixas inéditas autorais, uma do cancioneiro popular nordestino (“Caicó”, tema já adaptado por Villa-Lobos, Teca Calazans e Milton Nascimento ) e “Pedra y Camino”, que remete a Mercedes Sosa, conhecida como “La Negra”. Brinca com cantigas de roda como breves vinhetas de entrada, sopra versos de Cecília Meireles .

No tópico dedicado às fotos e comentários sobre a sua história, vocacionada à arte, traz imagens de Maria Bethânia cantando a canção “Sete trovas”, de sua autoria. Nessa obra, Consuelo de Paula ostenta graciosamente o seu estandarte, que aparece claro num de seus versos: “a asa da canção em nosso reinado”.


BIOGRAFIA

Consuelo de Paula

Consuelo de Paula nasceu e foi criada em Pratápolis (MG). Graduou-se em Farmácia pela UFMG de Ouro Preto (MG), mas foi na música que se encontrou.

Radicada há mais de vinte anos em São Paulo, violonista e percussionista, Consuelo de Paula é autora e produtora dos CDs Samba Seresta e Baião (1998); Tambor e Flor (2002) e Dança das Rosas (2004), ricos em elementos de todo o país, mas, claramente referenciados em sua terra natal, onde manifestações como as congadas e o moçambique estão incorporadas na cultura popular.

No caso das congadas, festejos de cunho religioso trazidas ao Brasil pelos escravos africanos a partir do século XVI que representam a coroação de reis e rainhas do Congo, e que se constituem num cortejo percutido a acompanhar cantos e a expressão dramática de textos. O moçambique é uma dança dramática de caráter guerreiro, em que cada dançarino carrega um bastão, manifestação igualmente embalada por ritmos de percussão.

Consuelo compõe uma antologia produzida no Japão que elege os 500 melhores álbuns da música popular brasileira. A partir disso, teve editada lá mesmo uma coletânea intitulada Patchwork, com quinze de suas músicas da trilogia citada. Neste ano lançou o livro “Poesia dos Descuidos”, em que traduz em versos ilustrações de Lúcia Arrais Morales. O livro foi publicado a partir de premiação da Secretaria de Cultura do Estado de SP. O DVD Negra é o seu trabalho mais recente. (VM)


Serviço
Título: Negra
Artista: Consuelo de Paula
Direção: Dante Ozzetti
Número de faixas: 15

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras