Un, deux, trois

Por: Everton de Paula

A magia do circo.

Há muito tempo que não vou a um circo. Entretanto, jamais me esqueci daqueles aos quais fui. Trago ainda na memória muito dos animais, das acrobacias, dos trapezistas, da banda de músicos, da serragem espalhada no chão, da armação de lona... E quero acreditar numa coisa: muitas pessoas, como eu, podem ter se esquecido de muitas coisas na vida, mas não de um circo.

O fascínio do circo está na vitória imanente que representa: vitória sobre nossos temores mais primitivos de alturas, de animais selvagens, de sermos tão insignificantes num mundo que nos ameaça. Vitória sobre a sabedoria, o avanço tecnológico do nosso dia a dia. É isto um retorno ao mais primitivo e simples de nossas almas.

Por ser talvez o espetáculo mais puro ao alcance do homem comum, o circo nos convence de que nossas limitações podem ser vencidas, de que a selvageria do mundo pode ser domada e de que tudo que precisamos para alcançar aquilo com que sonhamos repousa na firmeza e na determinação.


Falando de cartas

Perdemos a arte de escrever cartas. Sentimo-nos humilhados, hoje em dia, quando lemos as cartas que as pessoas sabiam escrever há décadas missivas longas, inteligentes, elegantes. Nossos próprios esforços são insípidos e negligentes, ou então irreverentes; de qualquer forma, são desajeitados.

A epístola literária está, hoje, destruída pelo celular e internet, apenas para citar dois agentes de solidão real e contato virtual. Falar e comunicar-se eletronicamente, dizem, é melhor que escrever, mais cômodo, mais prático, mais rápido. Poucos têm possibilidade de ser artista com esses instrumentos supervalorizados. Ninguém é mais artista, da mesma forma que não se destaca nos e-mails. No telefone, por exemplo, tempo é dinheiro, existe um prêmio prosaico para a brevidade. Como isso é diferente do escrever cartas, nas quais podemos deixar nossas palavras fluírem à medida de nossos sentimentos.

Mas como reintegrar a carta de arte e comunicação a um só tempo? Seria uma questão de restabelecer certo formalismo nas relações que mantemos entre nós. Quanto maior a distância que em nossa opinião nos separa dos outros, tanto mais agradável será o desafio de preencher essa lacuna com palavras. Mas, penso, esta é uma questão decisivamente vencida pela tecnologia e pela praticidade.


Eu e os outros

Não é engraçado? Se alguém leva muito tempo para fazer determinada coisa, é lerdo; mas se eu levo muito tempo para fazer a mesma coisa, eu sou meticuloso, criterioso, cuidadoso.

No trânsito da cidade, o carro que vai à minha frente sempre anda muito devagar, desfilando barbeiragens incríveis. Curiosamente, o motorista logo atrás de mim parece estar dirigindo com toda a pressa do mundo. Então, o único normal sou eu.

Se alguém deixa de fazer alguma coisa, é preguiçoso; se eu é que não faço, é porque estou muito ocupado no momento. Se visito uma exposição de quadros com temas abstratos, entendo perfeitamente o que o artista quis expressar naquela confusão de formas e cores, enquanto o meu pobre vizinho, entortando a cabeça, busca compreender a mínima intenção do pintor.

Se alguém faz algo sem ser mandado, está passando dos limites; se sou eu quem segue em frente, fazendo-me surdo aos outros, trata-se de iniciativa.

Se alguém defende com unhas e dentes uma opinião, é cabeça-dura; se sou eu que o faço, é porque estou seguro de mim.

Se alguém se descuida de umas poucas regras de conduta, é rude; se sou eu que passo por cima delas, estou sendo autêntico.

Por que sempre pensamos que somos melhores que os outros?

Alguém diria: “amor-próprio superacalentado!”

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