Rua do tempo

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Ela nasceu estradinha estreita, cheia de curvas, percorrida por cavaleiros que vinham de perto e de longe. Quando o arraial cresceu, aumentou o número de mulas e cavalos que pisavam o chão da estrada. Depois, as casas já se contavam às dezenas. De quando em quando, um carro de boi passava por ela, carregado de sacos de arroz, de sacos de sal.

Alguém acreditou no futuro, plantou uma venda à beira da estradinha. Diante da varanda, fixaram-se argolas de ferro. Os cavaleiros amarravam nelas as rédeas de suas alimárias e, encostados ao balcão, ou sentados em sacaria, em latas de querosene, bebiam, picavam o fumo, conservavam-no no côncavo da mão, alisavam a palha, faziam o cigarro, opinavam sobre o ouro verde que viajava em direção ao norte e já espreitava as baixadas do Rio Pardo.

O sucesso da venda atraiu outras vendas para a beira da estrada. As casas do arraial superaram a centena, o lugarejo virou vila, virou cidade. Algumas vendas viraram armazéns. A estrada virou rua percorrida por carros de boi, por carroças. As lavouras de café transpuseram o rio, engoliram lugarejos, sitiaram Franca. Então, os carros-de-boi passavam pela rua, carregados de café, iam lá para a estação da estrada de ferro. Na volta, paravam nas vendas do comércio, eram carregados com latas de querosene, com sacas de sal, com latas de óleo, com sacas de açúcar, com rolos de fumo goiano, com rolos de arame, com enxadas e foices, com tecidos.

Tudo havia para se comprar nas vendas e armazéns da ruazinha que passou a ser chamada de Rua do Comércio.

O progresso se instalou na cidade, foi construído na rua importante o Bijou Theatre, casa de espetáculos onde se reunia a elite francana. As instalações tiveram vida curta, porém. Inauguradas em 1910, na edificação de número 52, foram devoradas pelo fogo em 1912.

Sapatarias começaram a habitar a rua, plantando raízes que, um dia quem poderia imaginar concorreriam com o curral, com a lavoura, com o comércio.

Em 1930, as autoridades mudaram o nome da rua, batizando-a de Rua João Pessoa. A população, porém, rebelou-se e, na calada da noite, arrancou as placas novas e recolocou as antigas, restabelecendo o nome de Rua do Comércio.

Nela existia zona boêmia onde foi preso Domingos da Guia, então famoso jogador de futebol, que aqui esteve, jogando pelo Corinthians, da capital paulista, contra o time da francana.

Nos últimos sessenta anos, nela funcionaram estabelecimentos comerciais que ficaram famosos: Casa Betarello, Casa Cometa, Irmãos Minervino, Casa Barbosa, Leiteria Polar, Ótica Melani, Caio Silva, Calçados Agabê, Irmãos Olivieri, Irmãos Flausino...

Na Rua do Comércio moraram personalidades como o Doutor Alfredo Palermo, o Cavalheiro Petráglia, a Dona Rosinha. Nela morou uma moça muito bonita, chamada Nassima.

Na esquina com a Rua Alcindo Conrado, morou também um homem cujo nome se perdeu na História, esfumaçou-se na noite que cobre até almas maiores.

Não se apagou, contudo, da alma de um moleque de oito, nove anos, entregando leite de casa em casa e sofrendo as agrúrias da chuva e do frio, o gesto anônimo do morador de entregar-lhe um paletó usado e muito maior que a criança, mas que a cobre até hoje.

Aquece e protege contra o frio das indiferenças.

A cidade cresceu, sumiram os carros-de-boi, sumiram as carroças, sumiram as curvas da rua, asfaltaram seu chão. Além disso, há outras ruas mais famosas, mais modernas que a Rua do Comércio.

Mas é na antiga ruazinha que mora, hoje, o menino que, descalço, molhado e tiritando de frio, entregava leite nos domicílios.

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