Marcinho Explosão

Por: Hélio França

O futebol amador, assim como o profissional, possui suas histórias e lendas. A arte de correr atrás de uma esfera de couro transformou-se numa necessidade inconsciente das pessoas, tanto que a Copa do Mundo é considerada hoje o maior evento esportivo do planeta, superando as Olimpíadas que permaneceram por muito tempo no topo.

Franca também já teve grandes equipes amadoras e não cabe aqui descrevê-las porque correríamos o risco de não citar alguma, o que seria quase um pecado. O futebol amador tem histórias incríveis ( que o diga Luiz Cruz ) de superação, sacrifício, e por que não dizer, recheadas de episódios inusitados com algumas pitadas de humor.

Por volta do ano de 1984 o campeonato varzeano da terra do capim mimoso estava a todo vapor. Naquela época cada equipe disputava com dois times, os aspirantes ( mais jovens ) que faziam a preliminar e os titulares que se encontravam no jogo de fundo. O time do Cruzeiro do Parque Leporace ia jogar uma semifinal contra o Corinthians da Vila São Sebastião. A cobra ia fumar. A rivalidade enorme e a bagunça das torcidas incendiavam o espetáculo.

O Cruzeiro tinha um atleta ( se é que podíamos considerá-lo como tal ) muito querido no seu time de aspirantes. Não tanto pelas qualidades físicas, já que era um boêmio irreversível, mas pela técnica sutil, pela alegria, pelo caráter e, principalmente, amor à camisa. Era um ídolo irresponsável que fazia a torcida rir e chorar ao mesmo tempo.

Chamavam-no Marcinho, no diminutivo, talvez pelo porte franzino. Pudera, ingeria muitos líquidos e poucos sólidos. Era adepto de cerveja, uísque, vodka, rum, vinho e a indefectível e boa cachacinha. Além disso bebia água, de vez em quando...

Quase nove horas da manhã, o Corinthians já em campo batendo bola.

Campo do Cruzeiro planinho, liso, todinho de terra, nem um tufinho de grama que fosse. Redes brancas nos dois gols, branca também a marcação das riscas feitas com cal. O time do Leporace ainda nos vestiários, trocado e pronto para entrar ouvindo as últimas orientações do técnico Realindo. Faltava um jogador, era o Marcinho. Não havia mais ninguém nem para o banco de reservas. Então vai assim mesmo com um a menos, disseram todos. E o Cruzeiro entrou em campo, eu com a camisa número oito.

Coincidência ou não, oito minutos de jogo e gol do Corinthinha. Jogo tenso, era lá e cá, e assim terminou o primeiro tempo. No vestiário o técnico dando as instruções para o Cruzeiro tentar o empate com um jogador a menos. A menos ? Não ! Time completo, eis que chega ofegante Marcinho, vindo de mais uma memorável noitada. Trocou-se rápido, as mãos trêmulas, as pernas idem, os olhos esbugalhados. Precisaria com certeza de umas três horas para curar a ressaca. De qualquer modo estávamos agora com onze em campo. Marcinho recebe a primeira bola, as pernas não obedecem o que a cabeça pede e a pelota lhe escapa na entrada da área.

Lá se vão trinta minutos e o placar continua favorável ao time da Vila São Sebastião. De repente, a cinco minutos do final num lançamento em profundidade, a bola faz uma curva, contorna o beque e encontra os pés de Marcinho que a domina com dificuldade, as pernas cambaleantes, entra na área já quase caindo e na saída desesperada do goleiro dá um toque sutil por cobertura. É gol do Cruzeiro ! A torcida explode em algazarra, explode ? Dou um abraço no autor do gol e grito : Marcinho Explosão !

Os foguetes espocam, o time do Cruzeiro enlouquece, vai pra cima do adversário, faltam dois minutos para o término. Escanteio para o azulão, todo mundo na área, o goleiro sai para socar a bola, não a encontra, é um bate rebate onde ninguém vê mais nada. No meio de um poeirão danado eis que alguém dá uma cabeçada na esfera e manda pra dentro, a rede balança, a torcida está em êxtase, invade o campo e corre em direção a Marcinho Explosão que sai vibrando com os braços abertos. Cruzeiro, dois a um de virada, e de ressaca. Acredite se quiser !!!

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