Chave da Taquara

Por: Hélio França

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Dizem os moradores mais antigos como o Sr. Júlio Pelizaro, 93 anos, que o vilarejo ganhou o nome a partir do momento em que no local foi construída uma derivação na linha férrea da Mogiana . Por meio de uma chave mudava-se a posição dos trilhos e o trem entrava na derivação com os vagões para o carregamento do café produzido nas fazendas da região.

Aliás, tal carregamento era feito na mão bruta, com os sacos de 60 quilos espalmados na cabeça. Nas proximidades da chave havia uma grande moita de bambu, daí o nome “ Chave da Taquara”.

O local situa-se a cerca de sete quilômetros de Cristais Paulista num platô alto de onde se descortina as furnas do vale do Rio Grande. Existem hoje algumas poucas casas, uma pequena igreja e um coreto acoplado a um salão coberto onde se realizam festas juninas e outras comemorativas. O clima é estupidamente delicioso, refrescante pela ação do vento calmo e constante que vem lá dos lados da Serra da Canastra. As manhãs esfuziantes e as tardes serenas compõem dias tranquilos, embalados ao canto melodioso dos pássaros pretos que vivem em bandos nas árvores do aprazível lugarejo.

As pessoas mais maduras de Cristais relembram festas alegres ali vividas num passado, dizem, nem tão remoto, visto que todo passado vivido com prazer fica indelével na memória. Dia 21 de agosto houve a tradicional caminhada anual de Cristais à Chave da Taquara. Eram adolescentes, moços, senhoras e idosos caminhando pela antiga estradinha municipal de terra. O tempo nublado e fresco estava propício para andar sentindo o cheiro do campo, da relva, do pasto, do cafezal e dos eucaliptos. Todos os caminhantes eram pessoas conhecidas, todos amigos.

Cidade pequena é assim, todos se conhecem e se cumprimentam, olham nos olhos e conversam sobre atualidades ou fatos passados. A prosa sobrevive nas cidades pequenas, vilas e lugarejos porque ao contrário das grandes cidades, existe tempo disponível para sentir, pensar e falar. Outrossim, o costume de se comunicar pela linguagem e pelo olhar vem de longe, lá dos nossos avós, quando havia menos televisão, menos trânsito, menos ruído, menos temor, mais silêncio e mais tempo. No meu ponto de vista qualquer cidade hoje com mais de cem mil habitantes está condenada a caminhar para o caos urbano.

É um caminho sem retorno, devidamente asfaltado sim, com luz, água e esgoto, mas também com estresse, violência e desorganização na educação, trânsito e saúde. Penso até que o melhor caminho não é o do progresso à custa do bem estar das pessoas. O melhor caminho mesmo é o que fazemos rumo à paz interior que existe dentro de nós, e que se encontra às vezes tão perto de nossos desejos. Pode estar, porventura, apenas a poucos quilômetros, sob os pés que hão de caminhar céleres, sempre, rumo à Chave da Taquara ...!

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