Fahrenheit

Por: Mauro Ferreira

Sempre gostei de ficção científica e resolvi experimentar o gênero.

Corria o ano da Graça de 2067. O funcionário do Controle Central ajudava a recolher velhos livros em papel, extintos desde 2023, nas ruínas do prédio público que um dia havia recebido a biblioteca da cidade. Ele seria demolido para dar lugar a um viaduto-turbo, pois o e-book havia eliminado a necessidade de bibliotecas e o governo já havia proibido preservar o que antes era chamado patrimônio histórico. Tudo deveria ser reconstruído, nada deveria lembrar os tempos passados e a sua memória. As empreiteiras que sustentavam o governo assim exigiam. Nada de conservar o velho, só construir o novo.

Enquanto uma equipe ia jogando os volumes amarelecidos pelo tempo e pelo uso numa espécie de trituradora, a outra acionava um pequeno queimador a laser que incinerava os retalhos rapidamente. Os livros estavam ordenados pelo sobrenome. Bastianini, Borges, Coutinho, Ferreira, Maquiavelli, Maranha, Oliveira. Outro lote estava reunido sob um único título: Academia. Tudo virava cinza a 451 graus Fahrenheit.

De repente, um curioso título chamou a atenção do funcionário. Era uma plaquette com o título “Os Brancos da Broxa”, assinado por Massafera. Não havia ficha bibliográfica, ano de publicação ou editora, parecia mais uma edição clandestina. Havia apenas uma trêmula anotação a mão na primeira página: “premmium meritum plussa-xax do ano”. Intrigado, o funcionário resolveu arriscar uma punição do chefe e escondeu o livro em sua mochila-marmita aquecida eletro-eólica. Queria ler o que havia naquela antiga e misteriosa publicação aparentemente secreta. Em casa, procurou no Google Pai pelo nome do autor.

Para sua surpresa, Massafera era nome de uma mulher que havia sido comandante do Gaveteiro Funerário da cidade. Seu estilo literário laudatório a havia levado à presidência da Academia e também a merecer o citado premmium. O texto ficcional celebrava a saga de um nobre e humilde grupo familiar oriundo da região dos fiordes escandinavos, cujo principal objetivo na vida era discretamente pintar de cal virgem e branca tudo que havia pela frente. Os muros dos cemitérios, postes de luz, árvores mutiladas que viravam troncos com polainas, guias, sarjetas, bancos de praça, estátuas. Por isso, passaram a ser conhecidos como “Os Brancos da Broxa”.

Mas surgiu um deles cujo estilo revolucionário o tornou a ovelha negra da família. Falante, dono da verdade, com opinião formada sobre tudo, convenceu todos a pintar tudo de preto, inclusive o chão. No começo, foi saudado por isso. Depois, começaram a perceber a verdade e o engodo daquilo, os tempos foram ficando escuros, a paisagem luminosa foi obscurecida, tudo foi se tornando de um negror tal que entristeceu o povo da cidade. Não havia mais alegria. Neste ponto o livro se interrompia, as páginas seguintes haviam sido arrancadas. Por via das dúvidas, para evitar qualquer punição, o funcionário lançou ao fogo aquele último exemplar. Não restaria mais nenhuma lembrança daquele tempo escuro e da ovelha negra.

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