Reencontrar o centro

Por: Jane Mahalem do Amaral

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“Atinge-se a maturidade
humana quando o tempo em que se perde a conexão com o Ser
torna-se cada vez menor”.
Graf Dürkheim

Eu ganhei um livro bem original: Mandalas de Al-Andaluz. A amiga que me ofereceu esse presente é uma artista plástica e tem um trabalho muito bonito com mandalas. Ela me explicou o essencial: o livro vem apenas com os desenhos e a grande descoberta é pintar as mandalas. Fui lá e comprei uma bela caixa de lápis de cor e adorei me ver sentada brincando com aquelas múltiplas cores e formas. As mandalas, segundo explicou minha amiga, é um das artes mais antigas da civilização humana. É a presença do círculo que simboliza os ciclos cósmicos. Todo círculo se fecha para depois se abrir em outro espaço-tempo. As mandalas estão presentes nas grandes obras da arquitetura, principalmente as encontramos nas catedrais com seus vitrais coloridos. Mas elas vão além da beleza, pois toda mandala é a delimitação de um espaço sagrado do retorno à unidade. Mandala é uma palavra sânscrita que significa círculo, uma representação geométrica entre o homem e o cosmos. Dentro da visão do budismo tibetano, ela é o espaço da meditação.
Os monges, dentro dessa tradição, consideram as mandalas importantíssimas para iniciá-los no estudo do significado da iluminação. Para eles o processo da construção de uma mandala é uma forma de meditação constante.

Comecei minha experiência em pintar mandalas e percebi que toda essa visão milenar tem mesmo um sentido bem profundo. Primeiro porque, como orienta o próprio autor do livro, deve-se procurar um lugar bem iluminado e silencioso. Escutar atentamente a si próprio, parar a atividade cotidiana e voltar-se ao seu centro. Então é como se ela fosse mesmo um instrumento de volta ao eixo, de volta ao equilíbrio, pois é somente a partir desse lugar é que podemos dar respostas aos diferentes desafios da vida. Daí também a importância da coluna vertebral dentro da proposta do Yoga, pois é ela o eixo do corpo e, consequentemente, atingindo esse equilíbrio corporal, chegaremos também ao discernimento e clareza das nossas emoções. Corpo e mente juntos. Lembrei-me do mestre Graff Dürkhein, citado acima, e o que ele nos esclarece é justamente isso: o sinal da minha maturidade humana é o fato de voltar o mais rápido possível para o meu eixo...

Como essa verdade simples é difícil de ser observada em nós mesmos. Quanto tempo fico, por exemplo, curtindo uma raiva? Ou como deixo as palavras maldosas daquela pessoa ficar ecoando por tanto tempo dentro de mim... E ainda: quanto tempo eu demoro em me livrar de pensamentos insistentes que já fazem parte de um passado impossível de ser modificado... E a ansiedade que me prende a um futuro que nem sei se irá se concretizar? Voltar ao eixo, voltar ao centro, reencontrar o equilíbrio: é essa a conexão com o Ser. Quando estamos em equilíbrio, estamos conectados com a verdadeira Realidade. Estamos presentes no aqui e agora.

E então pensei no Natal: o que é sentir esse nascimento do Cristo dentro de nós? Não seria apenas me conservar conectada com o meu centro? Não seria esse centro a fonte de toda a energia do universo presente na figura do recém-nascido na manjedoura? O presépio é uma mandala: o menino Jesus é o centro de um círculo que se fecha na simplicidade para nos oferecer o mais rico de todos os presentes de Natal: a Presença que renasce em cada um. Feliz Natal!

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