Vazio

Por: Mauro Ferreira

Sempre que o Natal se aproxima, eu me recordo dele. Foi um dos mais brilhantes alunos da minha classe no IETC. Foram apenas uns três anos de convivência mais próxima, período que eu o segui por todo lado, freqüentava sua casa, estudávamos junto. Melhor dizendo, ele me ensinava, tinha a facilidade para conversar e aprender que eu não tinha. Era um bom músico também. Eu, ao contrário, só gostava de música, incapaz de perceber a diferença entre um si bemol e um fá maior e, apesar do esforço da Lúcia Garcetti, continuei um analfabeto musical.

Era um tempo de mudanças rápidas e estonteantes, a passagem da adolescência para a idade adulta, quando ainda não sabíamos o que viria, nem pensávamos muito sobre os fluxos sem sentido da existência. A gente vivia cada dia como se nada fosse mudar.

Quando ele morreu (nunca quis saber se foi um acidente ou não), já estávamos afastados pela vida, pelo ritmo frenético e alucinante daqueles tempos, eu cursando arquitetura em Mogi, ele ciências biológicas na USP em Ribeirão Preto. Seu velório, na casa onde sempre viveu com os pais (e a gente freqüentava atrás dos bolos de fubá e do café da tarde), atraiu impressionante massa de jovens estudantes do IETC, sua mãe era uma pedagoga conhecida e reconhecida na escola. Eu não tive coragem de entrar, fiquei do lado de fora a pensar como a vida pode ser injusta, impedindo um garoto inteligente como ele de seguir em frente. Talvez, de maneira egoísta, pensasse também que podia acontecer repentinamente comigo ou com qualquer outro dos jovens que estavam ali.

Só voltei ao convívio da família dele uns dez anos depois, mesmo que a ferida nunca tenha cicatrizado totalmente. De certa forma, eu acreditava constrangido que a mãe dele, ao ver-me vivo, lembrava do filho ausente e isto doía nela. Depois, passei a acreditar que minha presença a reconfortava. Perto do Natal eu sempre passava em sua casa para conversar, ela em sua cadeira de balanço, já viúva. Nossas conversas nunca foram regradas pela lembrança do filho, ao contrário, era da vida que ainda viria, dos meus filhos, dos outros filhos dela que saíram cedo de Franca para nunca mais voltar, dos netos.

É Natal de novo. Mesmo reunido com minha própria família, com a lembrança dos nossos próprios antepassados, não me esqueço do amigo querido e de sua mãe que também já se foi, sentada em sua sala modesta da rua Couto Magalhães, a fala mansa, os ensinamentos de quem viveu uma tragédia e tocou em frente continuando a ensinar, como que a antecipar os Titãs e sua versão da música popular, “é preciso saber viver”.

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