Orquestra maluca

Por: Farisa Moherdaui

Aquele prédio na esquina daquela rua fora um dia ponto comercial e depois de algum tempo desativado. Hoje, bem diferente.

Ela, a vizinha da esquina que tudo veio acompanhando e, muito curiosa, deu logo um jeitinho de buscar informações sobre o que seria instalado por ali, na primeira oportunidade, como que por acaso, se apresenta ao sorridente e educado senhor que imaginou ser o novo dono do pedaço.

— Senhor, é um prazer saber que logo seremos vizinhos e se me der licença quero até opinar sobre o que possa ser instalado na nossa esquina: uma loja de roupas, de sapatos, uma clínica médica ou odontológica ou até mesmo uma loja de carros importados, né? O que vier, acredite, será bem-vindo porque a nossa rua merece mesmo um empreendimento de alto padrão.

Não, não madame, aqui vai ser um ponto comercial, mas não de roupas nem sapatos, nem clínica de saúde, muito menos carros importados. A senhora, eu tenho certeza, deve gostar de animais e aposto que tem em casa pelo menos um cachorro ou um gato. Espere e vai ficar muito mais contente.

— Sabe, senhor, posso até dizer que gosto muito de bichinhos, mas não tenho em casa nem gato, nem cachorro, bicho nenhum, prefiro tê-los bem longe da minha casa, sem latidos ou miados. Passados alguns dias o prédio amanheceu de portas e janelas abertas, bonito pra freguês nenhum botar defeito e em letras grandes a identificação “Produtos Agrícolas”. E a vizinha vendo caminhões a descarregar sacos de adubos, rações, milho, mudas de plantas, chapéus, botas, aquários e coisas mais do ramo. E no outro canto da casa, outro letreiro: “Cantinho dos Bichos”, de onde vem a maior sonoridade formada pelo maestro papagaio, o canto do galo, o cocoricó da galinha, o gluglu do peru, além dos trinados do marreco, dos gansos, patos, pintinhos e outras aves, formando então a mais divertida orquestra de bichos.

Um pouco mais complicado quando toda a melodia se mistura também com o toque do telefone ou o tilintar da campainha da casa vizinha. Aí é um Deus nos acuda! Mas ela com tudo isso jura que sente falta e até acha que a rua fica triste quando o cachorro não late, o gato não mia ou as aves fecham o bico.

Bom proveito, hein, vizinha da esquina!

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