Arte & cultura - as ausências do PT e da Globo

Por: Everton de Paula

Há quem pense que arte e cultura são palavras sinônimas. Não são. Cultura é muito mais abrangente, pois se refere a tudo aquilo que a inteligência humana pôs no mundo, seja religião, ciência, culinária, moda, produtos... A arte é só um pequeno pedaço da cultura. Em minhas aulas, tenho exemplificado que cultura é tudo aquilo que provém da inteligência humana; o que tem origem na natureza não se pode denominar cultura. A chuva não é um produto cultural... O guarda-chuva é.

O alcance da arte é enorme, porque nos faz muito bem. Ao ouvir uma boa música, após assistir a uma notável apresentação teatral, quando se lê um livro, por exemplo, a pessoa que tem a oportunidade de fazer alguma dessas atividades vivencia um momento especial na sua vida. Deparar-se com a arte pode ser um encontro que nos emociona, mas também pode nos levar a pensar. É uma pena que governos de países latino-americanos do hemisfério sul não gostem de povo pensante!

Qualquer forma da arte pode nos ajudar a viver melhor. Pode até mesmo nos fazer entender nossos aborrecimentos e preocupações. O que não podemos ter é medo de não entendê-la. Basta lembrar da música clássica para saber que a única solução é querer começar a se encontrar cada vez mais com ela. Por isso minha admiração pelo trabalho de Nazir Bittar em Franca, apesar de tantos obstáculos.

Infelizmente, no Brasil contemporâneo, as artes não estão, por exemplo, na televisão e nem no rádio. E é por causa disto que fica aquela desconfiança de que arte não é para todo mundo. De que arte é coisa de elite.

Para você, prezado leitor, entender melhor do que estou falando, acesse o YouTube e digite “BBB A masturbação nacional Antonio Veronese”. Ouça a entrevista até o fim.

Assista a esta entrevista e entenda por que eu digo e insisto sempre em dizer que o lado mais belo da cultura no Brasil encontra dois vazios impreenchíveis: a Rede Globo de Televisão e o Partido dos Trabalhadores (PT). A fala do artista plástico Antonio Veronese deveria ser publicada nos maiores jornais do país, enquanto um site da Rede Globo publica virtualmente, no seu caderno “Cultura”, quantas vezes as mulheres do BBB se masturbaram embaixo do edredom neste programa...

Enquanto não houver política pública nacional, estadual e municipal para oferecer ao público o que há de melhor no âmbito das artes e da cultura teremos campo muito amplo para o raso. Franca está próxima de ganhar o status de capital da música sertaneja, enquanto nos palcos dos países de primeiro mundo a bossa nova ganha cada vez mais espaço, com público cada vez maior... O público assiste àquilo que o poder público lhe oferece; é mais fácil ficar em casa e assistir ao BBB comendo pipoca de cuecas que ir ao teatro ouvir uma boa música clássica ou assistir a uma talentosa peça cênica... Mesmo porque não os há! O público não gosta de porcarias... Assiste a porcarias por falta de opção... E tome Gugu, e tome Faustão, e tome sertanejo, e tome BBB...

O PT fala muito em distribuir renda. Mas e a cultura? E as artes? Por que não as distribuir de igual modo? Na falta de melhor educação, mais eficiente distribuição de arte e cultura, ocorre a inevitável “estupidificação” coletiva.

Em certo momento da entrevista, diz Antonio Veronese: “A televisão é uma concessão do Estado. Tem que haver contrapartida de interesse público. Não é só diversão barata (...) Tem que haver espaço para Guimarães Rosa, Villa Lobos, Vinícius de Moraes, Cândido Portinari, Tom Jobim (...) Mas isto tem que ser política de Estado. O mercado por si só não consegue.”

É isto simples assim: o povo consome o que lhe é dado. Como em Franca, a exemplo, não me são permitidos Chico Buarque, Gil, Caetano, mostras e palestras sobre Oscar Niemeyer, Lúcio Costa; enquanto não tivermos João Gilberto, Marília Pêra e outros desse naipe de valores culturais, permito-me não me satisfazer com a pobreza da música sertaneja, com o rancho e a cerveja. Nada a ver com os adeptos da “sertanejoquite”, vítimas culturais do regime e parte da mídia, principalmente televisiva.

Seria muito difícil entender que do mesmo modo que há quem goste da composição sertaneja/rancho/cerveja, há quem aprecia os clássicos, a reflexão, o debate? Por que nos privar dos melhores programas artístico-culturais?

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras